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Pele De Galinha

blue_and_goosebumps_by_clandestineaesthetic-d5o58g8 (1)Não gosto do Carnaval, é festa que não me diz quase nada, o que é estranho, porque gosto de máscaras, de comes e bebes, da disrupção das convenções sociais, de uma certa tendência para a libertinagem. E, no entanto, o Carnaval da forma como o vivemos cá não me fascina.

Ao mesmo tempo, gosto do Carnaval de outros sítios: da Veneza das máscaras e dos bailes, das batalhas de flores em Nice, da espécie de campeonato de coleccionar contas de New Orleans. Claro que dizer que não se gosta de uma coisa portuguesa mas se gosta da mesma coisa em estrangeiro é meio caminho andado para ter um monte de gente à porta a chamar-me nomes – estrangeirado, assoberbado, armado em fino, presunçoso, armado em parvo – mas não retira verdade aos factos. É verdade que gosto do lado etnográfico do Entrudo tradicional e antigo, dos caretos e das marafonas, e que o Carnaval me interessa do ponto de vista histórico cultural e sociológico, mas não consigo achar graça às “brincadeiras” típicas da coisa, não gosto de levar com água e farinha no Inverno, acho que a crítica-política-e-social-com-carro-alegórico é anacrónica, e acima de tudo irrita-me a colagem ao modelo de Carnaval do Brasil, com a diferença que no Brasil 1. é Verão 2. levam a coisa a sério 3. sabem dançar.

Há poucas coisas tão tristes como ver um monte de gente semi-nua em Fevereiro, a morrer de frio, a tentar fazer umas danças pobrezinhas e a misturar isto com uns tractores com cartazes a dizer abaixo isto ou abaixo aquilo e a reproduzir um quadro caricatural qualquer que teve piada no facebook durante um par de dias, três meses antes.

Quando a parte com mais piada de um cortejo de Carnaval são três tipos numa mota velha vestidos de matrafona, algo está errado, e não são eles.

Ao mesmo tempo, não há uma festa de Carnaval onde se possa ir sem levar com uma dose insuportável de samba, normalmente de samba mau, dançado de uma forma que dói. Ora note-se que eu sou defensor acérrimo do dançar mal. Acho que cada um dança como quer desde que não tente impingir isso aos outros como bom. Não sou um purista de coisa nenhuma, dos que acham que para fazer mal mais vale estar quieto – essa atitude guardo-a para o trabalho; na diversão e nos passatempos defendo, da forma mais liberal possível, que cada um faça o que lhe apetece e o que lhe dá prazer, desde que não faça mal a ninguém. Podíamos proibir de dançar o samba quem obviamente não percebe nada daquilo, mas, mutatis mutandis, proibíssemos de foder quem não tem jeito nenhum para a coisa, ficaríamos provavelmente a braços com uma crise populacional.

Nunca estive no Carnaval no Brasil; admito que não me desperta grande interesse, por saber, à partida, que não é o meu tipo de festa. Há qualquer coisa no modelo brasileiro de Carnaval que não me fascina grandemente – talvez por eu ser mais de MPB do que de samba, talvez por me fazer confusão ver tanta gente tão ostensivamente divertida, talvez por me faltar nestas ocasiões uma dose substancial de álcool e drogas.

O Carnaval no modelo brasileiro é tão divertido que eu sinto que não consigo chegar lá e desisto ao fim de dois minutos. O Carnaval português é uma cópia tão mal amanhada do brasileiro que só me deixa triste, desapontado por não querermos fazer uma coisa diferente e melhor, decepcionado porque há uma festa que devia ser alegre mas não me dá alegria nenhuma. E pele de galinha só é sexy em doses moderadas.

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