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Por Que Não Te Quero Para Nada

É fácil gostar de quem nos serve: difícil é separar o amor do joio.

O importante de estar nas coisas é saber porquê; só ao saber porquê sabes se vale a pena, se o preço (e tudo tem preços) vale o gozo ou a serventia que te dá.

Quem ama o que não presta sabe-o bem: ficar não é função da utilidade, não se fica por conveniência, por dar jeito, por ser mais fácil. Fica-se apesar de tudo, apesar disso, porque, por alguma razão estranha, se ama.

Mais difícil é entender o que se sente quando o outro nos é útil; quando nos é conveniente; quando é mais fácil ficar do que um hipotético partir. Nunca se sabe ao certo por que razão se fica, vai-se ficando, chama-se-lhe amor.

Mas nada é preto e branco, sabe-lo bem. Mesmo aos inúteis damos desculpas: “dá jeito para arranjar torneiras”, dizemos, com o autoclismo a verter devagarinho e a torneira do quintal a pingar; “faz tantas vezes a comida”, como se não comesse também, como se não desse mais do dobro do trabalho alimentar dois que um.

Há que pensar nas coisas. medi-las bem. E fazer de modo a que não precisemos de nada – mesmo que o tenhamos, mesmo que o queiramos, mesmo que o aceitemos. Não se ama mais por rejeitar o outro, por empinar o nariz nem por clamar independência: pelo contrário. Mas vale a pena entender quem seríamos sozinhos, o que seria a nossa vida, e fazer de forma a que não nos dê menos trabalho estar com outro do que estar sozinho. Fazer de forma a que a existência do outro não sirva para nos facilitar a vida. Fazer de forma a que, sem o outro, a nossa vida ficasse, em termos práticos e objectivos, mais fácil.

(se pensares bem, é assim que são os namoros; os namoros dão trabalho, e seria objectivamente mais fácil não os ter; e no entanto temo-los; quando as pessoas se juntam começam-se a encostar; umas à roupa lavada, outras a quem faça as compras, outras a outra coisa qualquer)

E mesmo que a vida seja mais fácil com o outro, por causa do outro, feita em conjunto, há que pensar de vez em quando em como seria; se seria fácil, se seria prático voltar a ser só um; se terias coragem para essa vida, ou se te seria um fardo. E talvez quando chegares a esse ponto, quando estar juntos não tenha para ti qualquer utilidade prática, porque a vida separado não te incomodaria, possas dizer que estás porque amas, possas dizer que estás não porque é simples mas porque queres, possas dizer “Amo-te por tudo, e não te quero para nada.”

One thought on “Por Que Não Te Quero Para Nada

  1. 12/02/2018 at 15:22

    Maravilhoso. O patife aplaude as palavras e as entrelinhas. 😉

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