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As Filhas Das Mães, ed. 237

L’absence diminue les médiocres passions, et augmente les grandes, comme le vent éteint les bougies et allume le feu.

La Rochefoucauld

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obrar

Há quem entenda que obrar deve ser um momento épico, uma libertação intensa e preparada, uma apoteose, um prazer tornado tanto maior pela antecipação, pela negação repetida.

Há quem entenda que a frequência banaliza os actos, que a regularidade os menoriza, afinal há missa todos os domingos mas concertos da Shakira só há de vez em quando, por isso é que as pessoas gostam mais.

Há quem entenda que a vida deve ser racionada sob pena de se desvalorizar, quem não entenda que a felicidade quotidiana não é menos feliz por ser frequente.

Há quem entenda que a escrita é um evento raro, e que é rara a descida de uma musa sobre um comum mortal. Que nunca devemos escrever a menos que sintamos, lá por dentro, o frisson. E há quem entenda que é tão filha da disciplina como da inspiração, quem entenda que os livros não se escrevem sozinhos, que escrever só quando desce a musa é bom para os poetas, para os escritores de gaveta, no fundo, para os civis.

Para escrever são essenciais só duas coisas: 1) começar a escrever, 2) continuar a escrever. Para escrever bem é essencial escrever. Não quer dizer que basta escrever para escrever bem; nem tudo se consegue só com esforço e repetição. A Kátia Aveiro, por mais que cante, não vai ser a Adele, nem há um novo Ronaldo, por mais que corra e jogue e treine, no Alex do Oriental Dragon FC de Almada.

E, no entanto, embora não baste, é necessário: a lotaria não sai a quem não joga.

 

já aqui escrevi antes sobre a escassez artificial

Quando a musa desce sobre nós,

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Geografias Interiores: Sarilhos Pequenos

Era uma noite quase madrugada, um carro sem documentos, no tempo em que ainda se conduzia sem cinto, em que ainda não havia balões, ou se havia ninguém queria saber, não tínhamos carta sequer. Era uma estrada sem luzes nem pintura, quase só alcatrão entre bermas. Tínhamos sonhos em vez de sono, sobretudo tínhamos tempo e vontade de o gozar, sem saber em quê. Passávamos os dias a achar coisas e as noites a perdê-las, construíamos diálogos, canções e personagens; éramos os nossos próprios contadores de histórias. Não sabíamos tudo; não sabíamos quase nada. Sabíamos que queríamos outras coisas, sem saber bem o quê.

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Le Loup Garou

Olha-las sempre, com o olhar sereno de quem não vê, alguns diriam que o olhar apascentado de quem foi treinado a não ver, mas tu sabes que isso não é necessariamente mau.

Foste treinado, fomos todos treinados, para apaziguar o predador e ser gregários. Fomos treinados a olhar para as árvores e os cães e as ovelhas como iguais, como parceiros num jogo qualquer, não como presas nem como amantes.

Ensinaram-nos a ter parceiros para viver. Que as relações constam de dar, não de comer-nos uns aos outros. Ensinaram-nos a amansar a fera e os instintos e os rugidos, a ouvir e a calar, e a não morder.

Ainda assim há um limite. Nunca podes esquecer, como outros esquecem, que há um olho que vê de dentro do teu olho, um olhar vive por trás do teu olhar, o olhar do lobo. E há um limite, por muito treinado que estejas, por muito impassível que sejas, há um ponto impossível a partir do qual as figuras sobressaem pelo que são, e és e vê-las e são de novo seres sexuais. Abaixo disso nem reparas, que o treino se sobrepõe a tudo. Mas para lá da linha vem ao de cima o que não controlas: o animal em ti, o uivo da fera.

Quem nega o lobo esquece-se que, mesmo esquecido, o lobo come, o lobo tem fome. As luas cheias não são de mês a mês mas acontecem. Onde está o teu lobo? O que lhe fizeste? Escondeste-o? Renegaste-o? Disseste ao mundo que não existia? Apregoaste-te dócil e treinado? Vendeste-te ovelha para que te comprassem?

Ou domesticaste-lo, saíste com ele à rua em frente a toda a gente, controlaste-lhe os esgares e os impulsos, treinaste-o frente a mil bambis que não comeste?

Quando és lobo? Para quem és lobo? Frente a quem és lobo? Onde te libertas e és selvagem, onde, com quem soltas a fome das corças que não mordeste? Aprendeste, como os lobos, a viver num par que é selvagem junto, que se solta junto, com alguém que te conhece e te vê por dentro, te vê no fundo, e sabe que o teu ar apaziguado é só fachada e controlo?

Ou disseste a com quem vives que “já não”, que o lobo em ti já não existe, e essa fome de carne guarda-la para ti, escondida lá no fundo à espera de uma rua escura, uma sala vazia, uma ovelha perdida que te passa dos limites?

Que lobo és?

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Especular Não Ajuda Nada

Nunca sabes o que é o futuro. Depende de coisas que não conheces nem controlas, e uma delas és tu. Podes sorrir do alto da tua ilusão de que sabes quem és, de que sabes como irás reagir, mas nunca sabes. És o resultado das coisas em ti. Nunca sabes até onde aguentas até partir. Mas isso interessa pouco. O futuro é coisa que não existe hoje. Só irá existir quando for presente, e nessa altura irás vivê-lo sem o adivinhar. O futuro só existe no presente, o futuro é especulação. Mais do que adivinhar, é especular sobre o que farias e o que aconteceria em situações hipotéticas. Podes achar que especular te prepara para o que possa vir a acontecer, mas isso é uma lotaria. As coisas nunca acontecem bem como as previste ou as pensaste. Só por sorte a tua preparação te serve de alguma coisa. Quando muito serve-te para perceber que as coisas não eram bem como as pensaste, que não reagiste como tinhas imaginado, e isso só te serve para te sentires perdido e contrariado.

Só se perde perde de vista o agora. E fazer da especulação a principal forma raciocínio é a maneira mais fácil de isso acontecer.

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Os Livros Só Acontecem Ao Ser Lidos

Os meus livros não ensinam a plantar, nem a colher nem a pescar. E nem falam das virtudes nem das dores de outros homens. Estes livros não explicam os caminhos a seguir, nem mesmo louvam quem chegou onde devia. Nos meus livros não há ícones de santos nem espelhos do meu tamanho, não há heróis nem modelos nem há vítimas de nada. Nos meus livros há palavras e há beleza e há gente como nós. Em lugares remotos, em tempos estranhos, ou agora e aqui. Nos meus livros há mundos que são espelhos, e espelhos que são um mundo. Nos meus livros há lugares onde me perco, e outros tantos onde me encontro. Porque os livros acontecem não quando alguém os escreve, mas quando alguém os lê.

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Desejo Por Escrito

Imagino-te a voz. Imagino-te a falar de coisas eruditas e inúteis, depois a quedares muda e os teus olhos a encontrarem-me. Imagino-te os olhos. Límpidos, brilhantes, vivos, a fingir-se tímidos quando os baixas para as mãos. As mãos pequenas, cuidadas, não por falta de trabalho mas por trabalho do esmero, como os pés, que te imagino pequenos, delicados, suaves.

Imagino-te as coxas, opulentas, as ancas firmes.

Especulo sobre a cor dos teus mamilos e sobre o gosto da tua boca e sobre o gosto da tua cona. Imagino-me a comer-te, a lamber-te devagar, a deixar as mãos subir por ti abaixo. Imagino-te a impaciência, ou não te imagino de todo, apenas bebo as tuas palavras como vinho, perdido num lugar entre o sabor e a tontura.

O sexo – sabes? – é mais antigo que o homem, já o tínhamos antes de nos tornar humanos, foi o sexo que nos trouxe aqui, fez de nós quem somos. É mais antigo do que as leis, e que a cultura, e do que a escrita. É mais antigo que as hortas ou a culinária. O sexo cresceu connosco, evoluiu connosco, à medida que o cérebro cresceu, se fez complexo, o sexo sempre lá esteve. Pensamos sobre sexo porque, simplesmente, pensamos, e não pensar sobre sexo é uma falha tão grande como não pensar sobre arte, ou sobre o passado, ou sobre o futuro, ou sobre os outros, ou sobre o que faz de nós humanos, sobre o que é uma sociedade, sobre a ética, a estética, ou a moral. Mas é diferente a reflexão e o desejo, a análise e a vontade. E é por termos cérebros tão grandes, onde se passa tanta coisa, que tanta coisa nos estimula.

o sexo deixa de decorrer apenas do instinto básico e animal, da resposta visual, física, olfactiva. deixa de decorrer apenas dos estímulos básicos da sobrevivência, do convívio, da companhia. decorre de todas as coisas com que o cérebro se ocupa

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nunca vi os meus pais beijarem-se
nem passear de mãos dadas
nem sentar-se no mesmo sofá.

 

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Se houvesse um homem que ousase dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um palmo quadrado de terra onde ficar.

— Henry Miller, Trópico de Cancer

 

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Já deitámos fora a caligrafia – a expressão “letra de médico” diz tudo, até as garatujas indecifráveis são justificadas e não pressupõem que quem as escreve tenha um défice de formação ou não tenha nada de útil para dizer. Aliás, o correio electrónico, os processadores de texto e a internet acabaram quase de vez com o acto de escrever à mão – conheço pessoas que passam semanas sem escrever nada que não seja a data e a assinatura.

Já tínhamos deitado fora a pontuação, quando por todo o lado vemos desde quem a não usa até quem a usa mal até quem acha que as vírgulas servem para respirar e os pontos servem para mudar de assunto e o resto da pontuação não serve para nada no dia a dia nem na net e nem nos blogs.

Já tínhamos deitado fora o crivo dos editores nos livros, quando qualquer um se pode auto-publicar sem nunca ter ouvido uma opinião sincera, quando os editores foram substituidos por fulanos com licenciaturas em marketing, quando “auto-ajuda” passou a ser o nome de uma estante nas livrarias, e quando se publicaram em barda – e se venderam como pão quente – séries inteiras de livros que não nomearei.

Já tínhamos deitado fora o estilo, arremedando de complexo tudo o que sejam frases longas ou que apele à concentração. A palavra escrita é um objecto de consumo, quer-se ingerida em shots pequenos e de fácil digestão.

A blogosfera também é isso dos shots pequenos e de fácil digestão. Com honrosas excepções, os posts não são construidos para convidar à concentração. Os que se concentram lêem livros, os outros vêm para aqui.

De alguma maneira entendo-os – Proust era um génio a produzir imagens mas conseguiu parir a Recherche Du Temps Perdu, que é

A caligrafia não me faz falta, e consigo ler sem estilo, consigo ler sem crivo, consigo ler sem pontuação. O que não consigo ler são ideias desconexas, frases que não fazem sentido. E, acima de tudo, não consigo ler erros de ortografia.

Há quem devia ser proibido de escrever no facebook
As ideias são uma coisa e o spelling é outro, mas há limites.

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“For seven years I went about, day and night, with only one thing on my mind – her.
Were there a Christian so faithful to his God as I was to her we would all be Jesus Christs today.”

Henry Miller, Tropic of Cancer

 

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Os Pequenos Preconceitos

A palavra preconceito tem normalmente para mim uso bastante limitado – emprego-a quando me quero referir ao preconceito na acepção pura e etimológica da palavra, o ter um conceito (geralmente negativo) de algo antes de conhecer de facto esse algo.

Mas hoje não é disso que quero falar e não me apetece dar voltas à cabeça para pensar noutra palavra, e esta serve bem, mesmo no seu significado mais vulgar de “coisa com que embirro solenemente”. Se calhar “coisas com que embirro solenemente” até dava um título melhor para um post, mas agora já está e não faz mal.

Há coisas com que eu embirro.
Já percebi que certas embirrações são relativas. Embirrei com certas coisas até ser confrontado com elas e chegar à conclusão que não são assim tão más, e em alguns casos passei mesmo a apreciá-las. Daí o preconceito, pré-conceito, de dizer que não se gosta de algo mesmo nunca tendo tido contacto directo.

O facto é que algumas das embirrações admitem excepções. E por vezes as excepções acabam por destruir a embirração de uma forma mais geral. Noutros não.

Embirro, por exemplo, com erros ortográficos, já o devo aqui ter dito. E no entanto, por exemplo, um dos meus melhores amigos dá pontapés na ortografia (não na sintaxe) como se fosse o Ronaldo dos acentos. Aprendi a aceitar isso porque o considero uma pessoa inteligente e culta, e um pensador lúcido e acutilante. Mas dá erros. E eu, que rejeitava liminarmente os erros ortográficos, e considero que os erros ortográficos de alguém são sinal de alerta para não ler mais nada, não deixei de o ler, nem de o ouvir (ele não dá erros a falar), nem de considerar a sua opinião. Porquê? Porque enquanto normalmente o erro me impede de me interessar mais, e cada erro ortográfico é com um espinho que me custa a suportar até ser demasiado penoso continuar a ler, no caso dele desvalorizo os erros porque sei que há ali conteúdo. E sei que o facto de eles se estar nas tintas para estar a escrever bem ou mal uma dada palavra não significa que se está nas tintas para o que está a escrever nem para o fio do raciocínio que está a seguir. Mas o caso dele é uma excepção pontual que deriva talvez do facto de eu o ter conhecido antes de o começar a ler. Os erros ortográficos continuam a fazer-me comichão.

Noutra vertente, embirrei com piercings durante anos a fio. Não me incomodavam nem desviava a vista, e até conseguia achar alguns esteticamente engraçados. Mas não era capaz de me interessar sexual ou emocionalmente por uma rapariga com piercings. Não estamos a falar de piercings em sítios estranhos, estamos a falar do básico piercing na orelha ou no nariz ou no umbigo. Turn off directo. Nunca soube explicar porquê, até havia raparigas giras mas nunca me interessei por nenhuma. Até me interessar por uma que tinha piercings mas eu não sabia. Tinha um piercing no umbigo. Mas era inverno, depois primavera, e até eu chegar ao umbigo já estava caidinho por ela. Quando efectivamente cheguei ao umbigo o piercing não me fez confusão nenhuma. Ao ponto de só nessa altura ter dado conta de que era perfeitamente estúpida uma coisa que eu associava aos piercings, o “frio do metal”. Os piercings afinal estão – coisa que eu devia saber perfeitamente, na escola estuda-se física – à temperatura do corpo, não são as coisas frias que eu achava que eram. O preconceito toldava-me o raciocínio, e eu nunca tinha sequer pensado seriamente no assunto, limitava-me a reagir por impulso e inconscientemente. Desde aí, os piercings no umbigo, nas mulheres em geral, deixaram de me fazer confusão. Há sítios onde o conceito ainda me afasta. Provavelmente porque nunca me apaixonei por ninguém que aí os tivesse, e eu só tenha dado por isso quando já era tarde demais.

Outra embirração de estimação, relacionada com esta, foi com anéis, brincos, pulseiras, fios, fosse o que fosse de metal. Ainda por cima porque não embirrava com eles do ponto de vista estético, só do ponto de vista do enrolanço. Nunca me fez confusão nenhuma falar, sair ou jantar com uma mulher com este género de adereços. Isso nunca me impediu de me interessar por ninguém, de todas as maneiras que calhasse a interessar-me. Mas quando começava a haver um envolvimento físico maior, vinha ao de cima a dita da embirração. Não me dava para beijar as mãos de uma rapariga cheia de anéis. Nem os lóbulos da orelha de uma que usasse brincos metálicos. Cheguei a achar que tinha um trauma qualquer com metais. Já havia a embirração dos piercings. Mais a dos adereços. Não uso adereços. Nem fios, nem anéis, nem relógio uso. Fui-me resignando a que era uma coisa de que eu pura e simplesmente não gostava, quando envolvia o toque. Nem depois da miúda do piercing a coisa atenuou, continuava a evitar as zonas do corpo das mulheres adornadas com adereços metálicos,

anéis, pulseiras e quejandos durante anos a fio.

Já aqui escrevi sobre isso no mês passado, mas nessa altura falava em concreto daqueles que se limitam a copiar com alterações mínimas um texto, um post de outrém.
Hoje reparei num post de um blog.
Um blog que gosto de ler, que não conheci há muito tempo, mas de que li algumas coisas na diagonal e que decidi passar a ler com mais regularidade.

Encontro um post que, no final de um texto muito aceitável, termina com uma frase que achei épica, brilhante, quase sublime.

plágio

frases repetidas

frases que acho tão belas que vou ver se quem são e encontro uma frase exactamente igual

o google é uma coisa cruel para os heróis de copipaste

http://www.meninodesuamae.com/2013/04/avenida-herois-de-copipaste-n-51.html

 

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Quando se conheceram? Teria sido em Fevereiro, talvez a 15, sim, era isso, tinham-se conhecido no dia em que os cupidos dormem enfartados e preparam mais um ano a afiar setas.

Tiveram de se apaixonar sozinhos um pelo outro.

hoje já posso falar de amor, do amor que arde e do amor que cura.
hoje já posso falar de amor, dizias, hoje que os

hoje já não está na moda. hoje não vais ser confundido com mais um que fala do amor.

hoje, que já não está na moda, eu que não suporto ser maria-vai-com-as-outras, eu que me tenho de mostrar diferente para não me sentir igual, para não ser só mais um…

escrever é expores-te, dizias. mas não és tu que escreves, sou eu que sou as tuas mãos. não te expões, nunca te expões, sou eu quem recebe os socos e os beijos e se expõe ao frio glaciar.

tenho esta compulsão de ser diferente e de ser original mas em que é tudo tirado a ferros.

 

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Matumbo, Ou A Ironia Do Destino

e no dia seguinte you fuck her till she bleeds

e assustas-te como o caraças

e mau seria se ela não se pudesse desmanchar a rir contigo

 

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O Contrário De Se Armar É Armar-Se

É impossível

Falar é afirmares-te, e por muito que

 

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Poema Sobre As Tuas Pernas

As tuas pernas são pedestal suficiente para ti inteira.
E isso é mais do que posso dizer sobre qualquer outra coisa do mundo.
E não há diamantes por que as trocasse,
Mesmo sabendo que podia ficar rico quando te depilasses.

 

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Nem é das sardinhas que tenho saudades, nem dos copos de três, nem dos cantores horrorosamente pimba que só se aturam depois de muito vinho.

Do que tenho saudades é de estradas de serra num carro velho, e de passeios de mãos dadas pela praia, e de te chupar as mamas na Serra de Sintra e de termos a certeza de que o guarda florestal nos estava a ver com binóculos da torre a quilómetros de distância, e de rirmos a tarde toda.

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Anything that is moral for a group to do is moral for one person to do.

— Robert Heinlein, Podkayne of Mars

 

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Marriage is a psychological condition, not a civil contract and a license. Once a marriage is dead, it is dead, and it begins to stink even faster than a dead fish.

— Maureen Johnson, in Heinlein’s To Sail Beyond the Sunset

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I don’t trust a man who talks about ethics when he is picking my pocket. But if he is acting in his own self-interest and says so, I have usually been able to work out some way to do business with him.

— Lazarus Long in Heinlein’s Time Enough For Love

 

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And you’re a very pretty girl, so I don’t mind your ignorance.

— Jubal Harshaw in Heinlein’s Stranger in a Strange Land

 

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He’s an honest politician, he stays bought.

— Jubal Harshaw in Heinlein’s Stranger In a Strange Land

 

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‘Savage’ describes a cultural condition, not a degree of intelligence.

— Lazarus Long, to Justin Foote 45th, in Heinlein’s Time Enough For Love

 

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o tamanho interessa? nunca vi ninguém que gostasse realmente de alguém deixar de andar com ele por causa do tamanho. não estamos a falar de one night stands nem assim. estamos a falar de gostar de alguém.

 

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Jess (about Judy): She’s a romantic…
Lionel: That’s absurd – she’s been married twice.
Jess: You have to be a romantic to marry twice!

As Time Goes By, BBC, 1998

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quote

Madness you may call it, but therein may be the secret of his genius… I prefer the word exaltation, exaltation which can merge into madness, perhaps. In fact all great men have had that vein in them; it was the source of their greatness; the reasonable man achieves nothing

— James Joyce, speaking of Fyodor Dostoievski

 

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Pêlos

As mulheres* têm um problema com os pêlos.

Em tempos pensava que as mulheres, tal como as outras pessoas, se vestiam de acordo com o clima. Eram os anos mais ingénuos da minha vida, talvez, e acreditava que a roupa servia para nos proteger dos elementos. Depois passei vários anos a espantar-me por as coisas, estas e outras, não serem nada assim.

Muitas mulheres, observava eu, usavam calças no verão e saias no inverno, o que me parecia estranho. Ainda contemplei a hipótese de as meias de vidro serem coisas muito mais quentes e aconchegantes do que originalmente pensara, mas bastou-me olhar para umas para perceber que não o eram, de certeza.

Um dia, subitamente, ocorreu-me que as mulheres não se vestiam de acordo com o frio que está, mas sim de acordo com uma consciência cósmica que lhes dita o que vestir. Isto entreteve-me durante uns anos, ali durante uns tempos foi mais um facto da vida que estava explicado, menos um problema para me atormentar.

E depois, de repente, percebi que estava enganado. Percebi que tinha a ver é com os pêlos.

Pensemos então uns instantes sobre pêlos:

Os pêlos são uma coisa perfeitamente normal nos seres humanos, e no entanto são talvez a parte de nós que com mais frequência tentamos alterar, manipular. Fazer a barba, depilar as axilas, aparar os pelos púbicos, são, de facto, formas de manipulação do nosso aspecto natural, tal como cortar o cabelo. São gestos que fazem parte do nosso quotidiano, por muito que haja quem defenda, em nome de uma qualquer tendência, que devemos viver vidas a que chamam “naturais”, e deixar de cortar pêlos, em nome de uma afirmação política ou sociológica. Mas já lá iremos.

Os seres humanos são bichos que já foram peludos e agora o são cada vez menos; inventámos a roupa há uns milhares de anos, os cremes há umas décadas, mas a evolução é preguiçosa e ainda não se apercebeu que já não precisamos dos pêlos para nos mantermos quentes nem hidratados nem lustrosos nem nada.

Digamos em abono da verdade que a evolução não é completamente parva: os povos das zonas mais quentes têm naturalmente menos pêlos e pêlo mais curto, e eventualmente os homens têm mais pêlos que as mulheres porque as mulheres adoptaram uma forma de vida mais sedentária e mais protegida dos elementos uns milhares de anos mais cedo que os homens.

Mas a estética é largamente independente da evolução, e a evolução social anda mais rápido que a sua congénere biológica, e assim, de uma forma geral, o ser humano é o animal que mais manipula a forma como se apresenta. Desde o mais óbvio, que é a roupa, até ao estabelecimento de regras bem definidas de comportamento em sociedade – variando consoante as diferentes sociedades e até segundo grupos dentro destas – que regulam actividades como arrotar, cuspir, comer de boca aberta, e outras formas de expressão corporal ou de apresentação.

À luz das regras que norteiam o vestir ou o coçar-se em público, os pêlos são, na sociedade da europa ocidental, uma coisa com amplos graus de liberdade. Ao contrário de países, por exemplo árabes, onde se regula a barba com a mesma veemência com que na Europa se reprime andar em cuecas, no Ocidente, para além da higiene e do gosto pessoal, os principais focos de pressão acabam por ser a moda e as convenções estéticas e sociais.

Paremos um instante para olhar à nossa volta: num mundo onde queremos direitos iguais para todos, a moda e as convenções estéticas e sociais não são algo que se desenrole no plano dos direitos. Ninguém proíbe ninguém de desafiar convenções – aliás, as convenções mudam ao longo do tempo, em boa parte devido a quem as desafia e as quebra. O que não podemos mudar por decreto é a forma como os outros nos interpretam e como nos classificam. A mudança de mentalidades é um processo lento, tal como o é o assimilar das convenções. Os homens, ao longo dos anos, usaram cabelo de todas as maneiras: curto, comprido, médio, com gel, despenteado, penteadinho, rapado, com perucas. Em cada época da nossa história cada um destes penteados foi interpretado de diferentes maneiras por diferentes sociedades. Ninguém me proíbe de usar um mohawk espetado com gel; eu não posso é esperar que não achem que sou punk.

Falo do penteado dos homens como podia falar do das mulheres. No entanto existe a noção de que para os homens as coisas são mais simples, e, com excepção do cabelo, há alguns anos o cidadão europeu médio achava que não havia sequer em que pensar. Os homens, supostamente, não se depilavam. Se exceptuarmos a barba, que é outro campeonato e tema para outra ocasião, os homens deixavam os pelos crescer naturalmente e pronto. Quando muito aparavam os pelos das orelhas e das narinas, que são uma espécie de barba a crescer no sítio errado, e mesmo isso já era esticar-se muito. Esta visão simplista, no entanto, não podia estar mais longe da verdade histórica. A depilação masculina é uma prática antiga em várias culturas, quer integral quer parcial, e está generalizada em vários subgrupos sociais há muitos anos. Também realizada com funções rituais, tribais, higiénicas ou técnicas, é no entanto uma opção estética desde há milénios. Os egípcios depilavam-se integralmente, deixavam só o cabelo. Os gregos faziam o mesmo. Os romanos tiveram de tudo, desde achar que os egípicios tinham uma doença por não terem pelos até copiarem a prática e adoptarem a depilação integral.

O facto é que, como espécie, reduzimos o pêlo à mais estrita função estética. Há excepções, claro, de índole prática, simbólica, religiosa, e há-as em ambos os sentidos, desde os Sikh que estão proibidos de o cortar até aos muçulmanos cujas regras lhes impôem depilar as axilas e aparar os pêlos púbicos, por alegadas questões de higiene. Nas sociedades laicas, os pêlos têm funcionado por vezes como forma de afirmação de convicções políticas ou sociais, como forma de afirmação de status, ou com outras finalidades várias, independentes de preocupações estéticas. Temos como exemplo as barbas e cabelos longos do Portugal do PREC, as feministas que deixaram de se depilar por convicções e/ou como manifesto de classe, como noutros manifestos anteriores tínhamos tido os cabelos de mulher à garçonne, e outros tantos exemplos.

Importa distinguir as afirmações, os hábitos e as modas. Há quem tenha definido o seu conceito estético há quarenta anos atrás e continue a usar bigodes à Pancho Villa desde os anos 70, como há quem use barbas cerradas e compridas porque agora está na moda o ar “hipster”, tal como há quem o faça convencidíssimo de que o faz porque isso é “mais ecológico” e poupa em lâminas e espuma de barbear.

Os homens nisto acabam por ter muito mais liberdade que as mulheres; à parte a questão das barbas, que nos homens crescem com mais facilidade que nas mulheres, os homens estão praticamente livres de constrangimentos e de pressões sociais quanto ao que fazem com os seus pêlos. Já de um ponto de vista sexual a coisa pode ser diferente, mas socialmente temos mais liberdade por uma razão simples: socialmente, toda a gente se está nas tintas para os nossos pêlos. Já nas mulheres a coisa é bem diferente.

Mais ou menos na altura em que eu achava que as mulheres se vestiam em função do clima, também calhei a achar que as mulheres, quando se arranjavam, se vestiam para agradar aos homens**. Fui-me apercebendo com o tempo de que em imensos casos isto não é assim. Desconfio que quando se vestem a pensar na “avaliação” de alguém, as mulheres se vestem sobretudo a pensar nas outras mulheres.

É esse factor, o julgamento das outras mulheres, que justifica grande parte da importância que as mulheres dão aos pêlos – ou à sua ausência. Claro que tentam racionalizar a coisa e pensar que os homens também as julgarão da mesma forma, mas o facto é que, salvo casos extremos, não conheço homem nenhum que tenha deixado de foder, namorar ou casar com alguém pelo facto de ela ter pêlos. Os homens, quando olham para uma mulher, podem ligar à higiene, a um ar saudável, e acima de tudo gostam de uma mulher que se sinta bem com ela mesma. Muitos de nós mais depressa nos livramos de uma fútil ou de invejosa crónica do que de uma mulher com pêlos nos sovacos ou nas pernas. Claro que há limites, e há gostos, mas os gostos variam. Há inclusive quem prefira mulheres com pêlos, nas axilas, nas pernas, ou na púbis.

Então para que se depilam as mulheres? Para começar, por estas quatro razões fundamentais:

1. Porque partilham entre elas o mito de que a depilação é universalmente considerada uma coisa mais bonita

2. Porque usam peças de roupa desenhadas para mulheres sem pêlos em certos sítios (collants transparentes, por exemplo, onde os muitos pêlos esmagados entre a perna e a meia têm um ar efectivamente muito mau)

3. Porque se julgam umas às outras

4. Porque decidem apostar, estatisticamente, no facto de que haja mais homens a gostar de mulheres sem pêlos do que o contrário

Além destas motivações, haverá quem o faça por higiene – real ou apercebida – ou porque goste mais de se sentir assim: são as razões mais válidas, e provavelmente mais frequentes do que muita gente pensa.

E, por último, há quem se depile por razões sensuais e sexuais.

O sexo, todos o sabemos, é um argumento forte para nos sugerir opções e comportamentos. E se o não é, devia sê-lo. E o facto de a depilação poder contribuir para aumentar a sensibilidade de certas zonas do corpo, ou para lhes dar um aspecto diferente e mais sensual faz com que estas sejam razões de peso quando se considera a depilação.

A depilação da zona púbica, quer nas mulheres como nos homens, tem efeitos quer ao nível erótico quer a um nível mais prático: menos pentelhos na boca é sempre uma coisa positiva, e ausência de pêlos pode colocar mais em evidência toda a zona genital, quer da mulher como do homem, o que a pode tornar mais atractiva e mais convidativa à exploração.

No homem a gestão dos pêlos púbicos pode assumir diversos contornos e ter muitas variantes. Tem três vantagens principais:

1. ao deixar de estar soterrado num tufo de pentelhos, o pénis pode parecer visualmente maior, o que é coisa de que um gaijo gosta sempre

2. ao deixar de ter pentelhos nos caralho e nos tomates pode ser mais fácil convencer alguém a lambê-los*** e aumenta-se a sensibilidade dos tomates ao toque

3. há pessoas a quem pode dar jeito deixar de ter pêlos no períneo e à volta do ânus, pelas mesmas razões

A depilação do escroto, do pénis e do períneo é mais fácil do que parece, e pode ser feita no banho com a gilette sem risco de um gaijo se magoar. Já os pêlos da púbis requerem uma abordagem diferente: num homem com pêlos no corpo, nas virilhas, nas pernas, no baixo ventre, pode ficar esquisito e um tanto ridículo rapar os pêlos púbicos. Uma possibilidade mais interessante é apará-los com uma máquina de aparar a barba – não fica ali uma zona rapada no meio de um corpo cheio de pêlos, a dar um aspecto de frango mal depenado, mas elimina-se a floresta amazónica que visualmente te faz o caralho parecer 5cm mais pequeno.

Quem tenha o corpo depilado pode fazer o que quiser e não deve precisar de conselhos: é fazer ali como fizeram no resto dos sítios.

Na mulher a depilação é outro assunto, sujeito a modas, a gostos, e a variantes. Há uma dezena de formatos diferentes para os pêlos púbicos, e uma dezena de métodos diferentes de depilação. A vantagem é que as mulheres costumam perceber um pouco mais de depilação do que os homens – e uma mulher que não se depile em mais sítio nenhum talvez não esteja disponível para depilar a púbis, muito menos a vulva e o períneo.

Na zona púbica, assistimos desde há umas décadas a uma tendência progressiva para a mulher se depilar mais, e não é simples entender se é por uma moda, se por influência estrangeira, se as mulheres têm descoberto que a depilação púbica é boa na óptica do foder, ou se por influência das novas técnicas de depilação que a tornam mais simples e mais eficaz e mais ao alcance de quem sempre o quis mas não tinha como.

No que diz respeito à zona púbica, as mulheres

 

 

 

 

 

 

Daqui se vê que o que

Para os homens a coisa é mais simples. Exceptuando a barba, que é outro campeonato, e para falar noutra ocasião, os homens têm poucas opções a tomar quanto aos pelos – ou não lhes fazem nada, ou se depilam.

 

As mulheres depilam-se nos sovacos nas virilhas, no bigode.

Toda a moda referente ao visual

A moda masculina para os pelos é ampla.

Já a moda feminina

 

 

 

 

não desgosto de pêlos

não vão para a praia porque têm pêlos

se eu fosse assim, não ia para a praia nunca

nunca me depilei, uso barbas e bigodes desde a adolescência

já rapei a cara duas vezes na vida e as pessoas ficaram tão assustadas que me pediram para nunca mais.

já rapei a cabeça uma vez, em que decidi cortar o meu próprio cabelo e correu mal.

Desde que começa

 

* nem todas, mas deixem lá generalizar um bocadinho

** perdoem o foco hetero do texto, mas escrever isto de uma forma completamente inclusiva baralha imenso as frases; façam o mutatis mutandis para os gays e as lésbicas, sabendo no entanto que a dinâmica de intenções, apreciações e métodos é bem diferente nos pares homossexuais. apesar do que algumas pessoas possam pensar, levar no cu não faz com que um homem passe a reagir como se fosse uma mulher, e uma mulher que gosta de mamas e de conas não passa a ser um homem. se pensam assim, tenham juízo e saiam mais à rua, sim?

*** sim, há quem tenha pêlos – um ou outro – na pele do pénis propriamente dito, como algumas mulheres têm pêlos nas mamas

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Geografias Interiores: De St. Tropez a Portofino, Pela Costa

Em Portofino há uma pequena igreja às riscas, consagrada a S.Martino.

Em Antibes há um forte quadrado.

castelo de cannes, restaurante com vista paa a croisette

vieux nice,

estradas de serra

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visto de turista

Quis pedir nacionalidade no teu corpo, proclamar-me

perguntaste-me por onde andei

estive em muitos sítios

mas nunca fui de lá

emigrante ilegal dentro de ti

quis pedir nacionalidade no teu corpo e o teu corpo acabou por ma dar a nacionalidade não se toma por usucapião

por muitos anos de residência que se tenha

a nacionalidade, salvo delito grave, é para sempre

não nasci em ti

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Nič Ni Resnično, Vse Je Dovoljeno

Nada é real, tudo é permitido. Foi só mesmo porque me apeteceu ter um título em esloveno.

Nada é real, tudo é permitido

Alamut, Vladimir Bartol
esloveno 1938
dedicado ironicamente a Benito Mussolini

Fedayin

os homens que aceitam a morte

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Sexual Behaviour

Numa casa de strip masculino, onde mulheres se juntam para ver homens despir-se, há consideravelmente mais gritaria, mais exibicionismo por parte dos clientes do que numa casa de strip feminino.

No paleolítico, quando ainda era aceitável que os homens fossem de uma maneira e as mulheres fossem de outra, como em todas as espécies do mundo, os homens não se habituaram a chamar a atenção do mamute gritando e esbracejando todos ao mesmo tempo.

Talvez as mulheres

No entanto

Quando um homem vê uma mulher

Quando uma mulher vê um homem

As mulheres olham para os homens e suspiram,

Uma casa de strip masculino tem consideravelmente mais gritaria e exibicionismo por parte dos clientes do que uma casa de strip feminino.

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woman with whip

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A Erosão De Eros: Papel, Roupa E Tampos De Sanita

Não conheço quem more sozinho e tenha ficado preso dias na sanita por não haver papel. No entanto conheço vários casos de quem mora com outrem e se queixa sistematicamente de que esse outrem nunca substitui o rolo quando se acaba.

Conheço poucos casos de gente que more sozinha e opte por comprar roupa nova quando a que tem está toda suja. No entanto conheço casos de quem mora com outro e se queixa de que a roupa do outro fica espalhada pelo chão da casa e que o outro nunca faz máquinas de roupa.

E se há casos de quem se encosta à expectativa de que outro vá por ele apanhar a roupa do chão, ou à esperança de que vá alguém e troque o rolo antes de querermos voltar a usar a casa de banho, a minha convicção é de que estes casos são a minoria. Ou talvez, porque não me consigo imaginar a fazê-lo de propósito, me force a acreditar que são a minoria.

O que sei é que há formas diferentes de viver e de estar, métodos diferentes para fazer as coisas. Cada um tem a tendência de as fazer pelo seu, nem sempre são iguais, e daí nasce o atrito.
Não é o diálogo que elimina o atrito, mas começa pelo diálogo. O atrito é evitável pelo

Quanto ao tampo das sanitas, o que acontece é simples – cada um tende a deixar o tampo da sanita como lhe dá mais jeito. É perfeitamente ridículo que alguém tenha de ter o trabalho todo para as coisas ficarem a jeito para o outro.

O problema das casas de banho é não terem urinóis

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Recortei no meu peito um vazio, em forma de ti, para te ter lá e agora faltas-me quando não estás.

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a definição em falta para os afectos

Há falta de palavras para definir os afectos.

Os afectos são coisas complexas, tão complexas como a natureza humana, Mas é complicado que

 

Se a sociedade fosse suficientemente evoluída, se as pessoas fossem suficientemente evoluídas, poderias dizer a alguém

 

 

lost crushes
quando as mulheres por quem tens um crush se vão embora
e não sabes se lhes hás de dizer alguma coisa ou não

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A Erosão De Eros

Dizem que o desejo desce – que diminui e murcha. Dizem que é normal e natural. Também dizem que há um monstro no Loch Ness e que há um bruxo na Amadora que dá consultas por e-mail e que resulta.

O que sei é que na vida há muitos focos, e ao tentar focarmo-nos em várias coisas ao mesmo tempo há sempre algumas que ficam negligenciadas.

É fácil deixar outras coisas passar à frente do desejo.

A erosão de Eros nasce

o esforço para

vivermos a vida à nossa maneira

as nossas vontades os nossos gestos e os nossos hábitos

cedência perante o outro

Não sei como se acha mais fácil querer surpreender alguém fazendo-lhe sobremesas do que supreender alguém deitando-se nua sobre a mesa.

A erosão de Eros não nasce do cansaço nem

Nasce da visão de nós como outra coisa, do typecasting num papel fixo que não é o de sedutor nem mesmo o de seduzido.

A erosão de Eros não se dá por saberes que o teu objecto de paixão arrota, nem por vê-lo a fazer chichi. Mas dá-se por não aceitares que ele te possa achar sexy mesmo assim, por não

Se fosse assim, a erosão começava no primeiro dia em que ele te visse ao acordar, como voz de sono e o cabelo em desalinho.

A cumplicidade também consiste em saber que o outro sabe que não somos perfeitos, nem estética nem funcionalmente, e que gosta de nós mesmo assim – não, não é “apesar disso”, é “mesmo assim”.

 

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Extreme Makeover

A roupa é muito social. Quase toda a gente que se veste ou se arranja fá-lo também um pouco por si, mas creio que a indumentária e outros arranjos ou pinturas cumprem primariamente uma função social.

Os homens e as mulheres têm (se acreditarmos nos estereótipos) visões e atitudes bastante diferentes quanto isto. Mas para além do sexo, há uma matriz de motivações comuns que vale a pena analisar.

Segreguemos as coisas e encontramos cinco tipos de razões para uma pessoa se vestir:

1. Para se sentir bem

2. Para sair à rua sem ser preso

3. Para ir trabalhar, estudar, e afins

4. Para ir a jantares, festas e outras actividades sociais

5. Para atrair pessoas e fazer sexo

Qualquer pessoa pode, em diferentes momentos da sua vida, vestir-se ou arranjar-se por uma ou mais destas razões.

Analisemo-las uma a uma:

Vestir-se Para Se Sentir Bem

Desde o paleolítico que a roupa ajuda o ser humano a adaptar-se a diferentes habitats e condições climatéricas. O exemplo clássico é o frio. Em Portugal faz frio e não dá jeito andar nu na rua, daí que queiramos vestir alguma coisa. Mas há mais razões para nos sentirmos melhor vestidos, desde os sapatos que evitam que magoemos os pés aos chapéus que nos protegem do sol. Com algumas excepções (ilha deserta, clima tropical, não precisar de fazer nada) todos acabamos, mais cedo ou mais tarde, por achar que nos dá jeito vestir qualquer coisa.
É obviamente diferente vestir-se para estar em casa ou para ir à rua.

Em casa algumas pessoas andam nuas e sentem-se bem com isso, outras não gostam e vestem-se. Sem outros compromissos sociais, leia-se “nos fins de semana sem nada para fazer”, há quem faça a barba mesmo que fique em casa, e há quem não a faça mesmo que saia à rua. Vestir-se para se sentir bem é a categoria mais ampla e com respostas mais variadas. No entanto há que distinguir esta motivação de qualquer uma das outras – esta é a única motivação completamente auto-gerada, a que não pressupõe a existência de outros. A forma de distinguir o “vestir-se para se sentir bem” de outras motivações, nos casos em que se vai à rua ou mesmo nos casos em que se fica em casa sem estar sozinho, é tentar perceber se a indumentária e o arranjo pessoal seria o mesmo caso estivéssemos em casa sozinhos, ou caso tivéssemos a absoluta certeza de conseguir ir à rua fazer o que temos a fazer sem ver rigorosamente ninguém. As diferenças, em alguns casos, podem ser surpreendentes.

O resultado do “Vestir-se Para Se Sentir Bem” varia segundo as pessoas e segundo os dias. Há quem se sinta bem com roupa velha, desbotada e com borboto, há quem goste de roupa bonita e de se arranjar para se sentir “ela própria”, há quem vista camisolões daqueles em que não se consegue perceber bem quantas pessoas estão lá debaixo e/ou se alguma delas esteve recentemente num acidente de automóvel. Quando se olha para alguém e não se consegue perceber, por mais voltas que se dê à cabeça, porque é que aquela pessoa achou que devia vestir aquilo, é normalmente a desculpa que se lhes dá: vestiu isto porque se sente bem assim.

Vestir-se Para Sair À Rua Sem Ser Preso

Independentemente de como nos sentimos melhor, há um conjunto de razões para termos de nos vestir. Uma delas é a convenção social que proíbe a nudez pública. Por vezes a única razão pela qual nos vestimos é para não irmos presos por atentados ao pudor, uma espécie de versão minimalista do “Vestir-se Para Se Sentir Bem”, nos casos em que a pessoa se está nas tintas para o seu aspecto – ou porque é mesmo assim e se sente bem como é, ou porque acha que por mais que faça o mau aspecto nunca vai passar dali mesmo.

Há quem ache que não ligar nenhuma à roupa é coisa de homens, mas não é. Funciona é de forma diferente nos homens e nas mulheres: os homens que têm aqui a sua única motivação para se vestir são normalmente indivíduos confiantes, que acham que não precisam da roupa para lhes melhorar o aspecto. Atenção porque é importante não confundir os homens a) que saem à rua com mau aspecto porque “só vestiram aquilo para não irem nus para a rua e serem presos” dos que b) vestem exactamente a mesma coisa porque acham que o look “descuidado” é giro ou é moda ou lhes fica bem (normalmente estão enganados e são basicamente parvos) e dos que c) vestiram aquilo porque é o mais alto que o seu conceito estético consegue alcançar (normalmente foram criados por pessoas com mau gosto e ainda não se conseguiram libertar).

Já as mulheres que fazem isto têm normalmente grandes ressacas de vodka, ou são daquelas que já “transcenderam o físico” (leia-se: já se convenceram que por mais voltas que dêem não conseguem ser giras – note-se que “giras” não é magras nem gordas nem bonitas, ser gira é sentir-se bem consigo própria, é isso que acaba por cativar os outros), ou acharam que conseguiam ir à rua fazer o que tinham a fazer sem encontrar ninguém conhecido – e engararam-se.

Vestir-se Para O Trabalho, Para A Escola, E Afins

A indumentária laboral é o campo onde se encontram mais diferenças entre homens e mulheres. A verdade é que a indumentária masculina tem menos variantes, e tem fardas não oficiais definidas para certas actividades. O fato é uma excelente invenção, que define uma “farda” efectiva para um conjunto amplo de locais de trabalho, deixando ainda assim alguma latitude para o gosto pessoal. Quem não usa farda veste-se de acordo com aquilo que vai fazer durante o dia. Escolhe a roupa de acordo com a temperatura que está. A roupa que um homem escolhe para ir trabalhar não é condicionada pelo que os colegas vestem, é condicionada pelo que lhes dá jeito.

Muitas mulheres, pelo contrário, parecem vestir-se de forma completamente dissociada do que vão fazer durante o dia. As mulheres usam saltos altos para ir trabalhar, o que é coisa que só num número muito seleccionado de profissões pode ser considerado relevante para a actividade profissional. Usam saias travadas para ir trabalhar, sem que o facto de ter os movimentos presos lhes dê qualquer vantagem na execução das suas tarefas.

Claro que há excepções, devidamente registadas, mas na maior parte dos casos é óbvio que a motivação das mulheres na escolha da roupa com que vão trabalhar é claramente outra que não a funcional.

Vestir-se Para Ir A Actividades Sociais

Quando toca a socializar, a maior parte dos homens veste-se a pensar no conforto e faz uso de alguma preocupação estética, nem que essa preocupação estética se resuma a escolher a frase que vai ostentar na t-shirt. Raramente se vestem a pensar em outros homens. Podem, no entanto, vestir-se de forma a tentar projectar uma dada imagem de si mesmos; isto poderia, na prática, consistir em pensar nos outros homens e na forma como, comparativamente, se vestirão, mas normalmente tal não acontece; aquilo que preocupa um homem é não destoar pela negativa, não parecer ser grunho, clueless, pacóvio, seja por se vestir demasiado mal ou demasiado bem.

Os homens não competem muito uns com os outros por causa da roupa; é raro um homem pensar “hoje hei de levar um fato mais giro do que o do Fonseca”. Quando o fazem é por pura ostentação, para mostrar que têm o fato mais caro, a camisa mais justa com os músculos maiores. É frequente focar essa ostentação nos acessórios: o relógio mais caro e mais raro, o telemóvel mais sofisticado, o carro mais caro e maior. Mas, ainda assim, o posicionamento psicológico do homem é menos o de competir com alguém que o de mostrar o seu domínio, como se quisessem demonstrar, ao entrar na sala, que eles é que são o rei ali daquela coisa, não são meramente um conde em bicos dos pés a competir com duques e barões.

As mulheres, pelo contrário, competem umas com as outras por causa da roupa. Vestem-se – ou despem-se – para estar mais giras que as outras mulheres, para ter melhor aspecto, para captar mais atenção. A atenção, nomeadamente a dos homens, serve como barómetro, como escala, para marcar pontos. Os homens, em certos contextos sociais, são-lhes completamente inúteis excepto como árbitros do concurso de gaija-mais-gira.

A escolha das toilettes pode variar imenso, e muitas mulheres vestem-se, tal como os homens, de forma a projectar a imagem que querem dar de si, radiando sofisticação, poder, controlo, conhecimento, capacidade.

Ainda assim a maior parte das roupas de mulher está desenhada de forma a captar a atenção dos homens; mesmo a roupa que não foi desenhada para esse fim – um saia-casaco, uma camisa clássica, umas botas de campo – é transformada por alguns homens num fetiche, mais explícito que um body de renda ou de latex.

E no entanto a roupa, tendo este efeito nos homens, é muito destinada ás mulheres; é com as outras que elas estão a competir, os homens são só balanças de quem-tem-melhor-aspecto; são manipulados pelas mulheres, mas, sendo homens, não se importam nada, desde que elas tenham bom aspecto. O optimista que há em cada homem, lá no fundo, bichana-lhe ao ouvido que hoje é que é, e que cada uma delas está a fazer aquilo tudo para ele.

Se o objectivo da roupa nas actividades sociais é estar mais gira, sentir-se mais gira, e se os homens são frequentemente um medidor disso, poderia perguntar-se se não seria mais eficiente não levar, simplesmente, roupa nenhuma – coisa que os homens apreciariam e premiariam com atenção. Na verdade, isso seriam mal visto pelas outras mulheres, que diriam que é batota e desclassificariam a mulher nua, usando expressões como “olha aquela vacarrona” e “grande puta”.

A competição de “quem é mais gira” que as mulheres levam a cabo em contextos sociais tem as suas regras não escritas, e parte do interesse é perceber até onde se consegue esticar a corda sem a partir.

Para atrair pessoas e fazer sexo – ou não

A roupa pode ter uma função erótica, sensual, sexual, de uma forma mais explícita ou menos.

Tudo a roupa que usamos numa interacção com outro pode ter valor erótico, quer seja ou não deliberado.

Esta combinação de explícito ou não com deliberado ou não produz um naipe de

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Ardes, queres, fixas. Respiras, aceleras. Consomes tudo o que sufoque. Matas tudo o que se interponha entre ti e o amor.

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O Bronzeado – Um Post Da Silly Season

O bronzeado é uma moda. Se olharmos para o passado, quem se bronzeava eram os pobres, que andavam ao sol no campo. O ar moreno, tisnado, era sinónimo de uma vida bem diferente da dos ricos, passada dentro de portas, em salões, ou em jardins à sombra, ou mesmo em ocasionais caçadas em dias frescos, não no pino do calor.

A moda nessa época era ter um ar puro, nobre, alvo. E foi evoluindo. As mulheres, mas também muitos homens, cobriam-se de pó de arroz, tomavam arsénico e outras drogas que lhes davam um ar pálido e doente, que de alguma forma e por razões difíceis para nós de compreender, eram considerado sexy, sofisticado, chique.

Mudaram os tempos e a classe mais baixa mudou-se também, do campo para as cidades, do sol da lavoura para as fábricas fechadas e sombrias. Começaram, esses da classe mais baixa, a passar mais tempo dentro de casa do que os nobres, e subitamente eram os pobres que eram brancos, magros, olheirentos. A classe mais alta reagiu, como sempre, procurando mostrar-se diferente.procurando exibir o seu status como elite, com a classe média atrás dela, a imitá-la, para parecer fina.

Hoje em dia o bronzeado dificilmente se afirma como marca de status. Ir à praia ou não ir, especialmente para quem mora no litoral, é mais resultado de uma opção que de um impedimento.

E, no entanto, há quem entre em pânico assim que começa o verão, com medo de estar “demasiado branca”.

E é uma pescadinha de rabo na boca: “estás branca, vai à praia” – “não posso, não posso ir para a praia neste estado, parece que tomei banho em lixívia” – “então não vás” – “mas tenho de ir, não posso andar por aí esbranquiçada com este ar de moribunda” – “então vai à praia”…

Só quem já assistiu a uma coisa destas é que entende o conceito de “solário”, que é uma espécie de salão de beleza onde as pessoas vão para se enfiarem dentro de uma espécie de máquina de tostas mistas muito grande e saírem de lá bronzeadas.

Diz quem trabalha nesta indústria das tostas mistas que há duas alturas do ano em que a procura sobe, por motivações distintas: imediatamente depois do verão – setembros, outubros – com a clientela que quer manter e prolongar o bronzeado que trouxe da praia, e imediatamente antes do verão – de abril a julho – com os que vão para lá estagiar para aparecerem na praia já bronzeados.

É um facto que o negócio dos solários parece ter conhecido recentemente uma forte diminuição de procura, motivada, assim espero, pela crescente sensibilização para os efeitos nefastos da exposição excessiva ao sol e seus sucedâneos. Estamos longe dos anos 90 em que até criancinhas havia quem levasse ao solário. Mas a verdade é que continuam a existir e a ter clientela.

Respeito a opção; respeito especialmente quem acha que tem melhor aspecto estando bronzeado, gosta mais de se ver, e lá vai – com moderação – o ano inteiro, tentando manter uma cor que dificilmente conseguirá indo todo nu para o Meco todos os sábados de Novembro. O que não gosto é quem lá vai para enganar os outros, quem lá vai preocupado com o que as outras pessoas irão dizer se for à praia em Agosto a parecer a Branca de Neve, quem lá vai para fingir que faz praia todo o ano – e no estrangeiro, que o novo símbolo de status é aparecer com alto bronze no Natal – quem faz, nisto do bronzeado como noutras vertentes da vida, as coisas pelo aspecto que dá, pelo que os outros vão pensar, pelo que os outros vão dizer.

É verdade que viver em sociedade nos obriga a conviver com muita gente, e que a grande parte dessa gente é parva e faz juízos de valor sobre aquilo que não sabe, baseada no que vê. Também é verdade que é fácil que os outros nos tratem de forma diferente conforme a opinião que têm de nós, mesmo que essa opinião se ancore apenas em coisas que eles acham ou coisas que pensam que sabem. E é igualmente um facto que por vezes a vida nos corre melhor, de forma mais fácil, com menos obstáculos, se os outros tiverem de nós boa impressão. Por vezes nem o fazemos por nós, fazemo-lo pelos que nos são queridos, aturamos as piadas parvas da professora de História da Luisinha para ela não fazer a vida negra à miúda, sorrimos à embirrante da nossa vizinha porque de vez em quando o Toninho a jogar à bola a deixa fugir para o quintal dela e tem de lá a ir buscar, cumprimentamos a amiga chata da nossa mulher porque elas participam juntas em muita coisa e não queremos provocar mau ambiente. Isto é uma coisa. Outra bem diferente é recear a opinião de estranhos na praia, na rua, ou no emprego, por estarmos a por os pés na praia pela primeira vez a 1 de Agosto. Como os pobres que somos, que tiveram de trabalhar até aí.

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Estes Dedos

Estes dedos foram feitos à medida dos teus seios,
desses lábios e das páginas dos livros esquecidos
onde antes vagueava, sem saber que estar perdido
é apenas outra forma de fingir não ter receios.

Sem saber que são vazios os sonos só de sonhos cheios
divagaram os meus lábios por bocas só de respostas,
sem saber que é nas perguntas que o futuro se mostra
e sem ver que é a corda que distingue âncora e esteio.

Estes lábios foram feitos à medida dos teus seios
as tuas mãos foram feitas para caber nas minhas mãos.

E se o fogo mal cuidado veloz vai por onde veio
estes dedos foram feitos para cuidar teu coração.

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As Filhas Das Mães, ed. 227

Almost all absurdity of conduct arises from the imitation of those whom we cannot resemble.

— Samuel Johnson (1709 – 1784)

 

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Porquê

A parte interessante de escrever um blog é descobrirmos para que queremos ter um blog. E isso é coisa que muda de tempos a tempos, de blog a blog. E se há quem faça do blog um diário e se há quem faça dele instrumento de intervenção ou de comunicação social, muitos continuam a ser apenas pequenas caixas de sabão a que se sobe para ter a ilusão de que assim nos ouvem de mais longe, ou para pertencer a um grupo de gente que se fala do alto de umas caixas de sabão para as outras, ou só para poder dizer que se tem uma caixa de sabão.

Muita gente não sabe ou não diz porque tem um blog. E de vez em quando pára e pergunta-se e descobre que não sabe responder.

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O Mundo, Amor, Acaba Onde Quisermos

À medida que se vive deixam-se memórias nos lugares e nos corpos.

E da memória e dos lugares e dos gestos se faz mapas, escritos a tacto nos corpos com tinta invisível, tatuados por baixo da pele onde a vista não chega e só o tacto alcança.

As minhas mãos correm-te o corpo como a um mapa. Na minha mente percorro-te o corpo e é esse o destino das mãos, percorrer-te e navegar estradas inteiras de ti. As minhas mãos percorrem-te a pele, percorrem-te o cheiro e o gosto. Não preciso de te ver, nem de te ouvir, quero ver-te e quero ouvir-te mas não hoje, não agora, agora quero apenas percorrer com as minhas mãos o teu corpo como se fosse o mais antigo mapa dos limites do universo, do meu mundo limitado e consciente e convicto.

E como nos mapas antigos, fora de ti só há dragões. E, ao contrário dos cartógrafos antigos, não preencho com mitos de dragões o desconhecido. Ao contrário dos cartógrafos antigos, sei o que há fora do mapa, onde há dragões. O que eles omitiam por ignorar, eu omito exactamente por sabê-lo. E por querer que seja ali, nessa fronteira, que acaba o mundo.

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Cem Coisas Que Precisas De Saber – Coisa #62 – Tens De Ser Feliz Hoje

Da mesma maneira que não se constroem casas fazendo primeiro o telhado e depois pendurando de lá as paredes, não se pode construir o presente à custa do futuro.

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As Filhas Das Mães, ed. 217

“They came to her, naturally, since she was a woman, all day long with this and that; one wanting this, another that; the children were growing up; she often felt she was nothing but a sponge sopped full of human emotions.”

― Virginia Woolf, To the Lighthouse

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As Filhas Das Mães, ed. 214

“How should we be able to forget those ancient myths that are at the beginning of all peoples, the myths about dragons that at the last moment turn into princesses; perhaps all the dragons of our lives are princesses who are only waiting to see us once beautiful and brave. Perhaps everything terrible is in its deepest being something helpless that wants help from us.

So you must not be frightened if a sadness rises up before you larger than any you have ever seen; if a restiveness, like light and cloudshadows, passes over your hands and over all you do. You must think that something is happening with you, that life has not forgotten you, that it holds you in its hand; it will not let you fall. Why do you want to shut out of your life any uneasiness, any miseries, or any depressions? For after all, you do not know what work these conditions are doing inside you.”

― Rainer Maria Rilke, Letters to a Young Poet

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Untitled

“It is not inertia alone that is responsible for human relationships repeating themselves from case to case, indescribably monotonous and unrenewed: it is shyness before any sort of new, unforeseeable experience with which one does not think oneself able to cope. But only someone who is ready for everything, who excludes nothing, not even the most enigmatical will live the relation to another as something alive.”

― Rainer Maria Rilke, Letters to a Young Poet

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As Filhas Das Mães, ed. 208

In our loss and fear we craved the acts of religion, the ceremonies that allow us to admit our helplessness, our dependence on the great forces we do not understand.

— Ursula K. Le Guin, Lavinia

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Um Post Sobre Burros

A vida é uma carroça com dois burros, um que conduz e outro que puxa. E nem sempre se entendem, nem sempre puxam juntos, nem sempre se revezam, nem sempre o que puxa acha justo ser ele sempre a puxar. Ou, às vezes, é o que conduz que brada aos céus a injustiça, que conduzir é mais difícil, obriga a pensar, a planear e a decidir.

Nem sempre os burros dão ao outro o que ele quer. E se há burros que acham que merecem, e que exigem, e que pedem, há burros que dão na esperança que lhes dêem, e recebem menos do que dão.

Há burros que gostam de massagens mas estão sempre cansados para as fazer. Há burros que querem broches mas não fazem minetes. Há burros que querem o jantar feito mas não lavam a louça.

Há burros que não lambem nada aos outros, mas querem que lhes lambam tudo a eles, e que acham isso normal.

São burros.

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Amor: Agape, Eros, Philia, Storge, Ludus, Mania, Pragma?

Cada povo fala do que percebe.
Diz o mito que os esquimós têm cinquenta palavras diferentes para falar de neve, que há povos no Norte de África que distinguem entre dez tons diferentes de cor-de-areia, que os índios da América tinham nomes diferentes para cada árvore e para cada bisonte da planície.

À medida que te distancias das coisas vais perdendo essa necessidade de ser específico, de diferenciar. No lugar onde tinhas um nome diferente e especial para cada um, passa a haver primeiro “os bisontes do Montana”, depois um abrangente “os bisontes”, finalmente um “eh pá, são uma espécie de bichos que parecem bois. mas em grande. e em feio”.

Talvez por isso nas sociedades ocidentais existam tantas palavras para falar de mortos e tão poucas para falar de amor.

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Manual de Instruções, cap. 98 – Checklist

Precisas disto na tua vida:

  • quem te dê amor;
  • quem te dê conforto;
  • quem te dê tesão;
  • quem te dê estabilidade;
  • quem te surpreenda;
  • quem te ache a melhor do mundo;
  • quem te estimule a ser melhor;
  • quem te queira tirar peso de cima;
  • quem te lembre das coisas que tens para fazer;
  • quem ames;
  • de quem gostes;
  • quem te trate como uma flor de estufa;
  • quem te veja como uma guerreira poderosa e selvagem;
  • quem em silêncio te ouça esbravejar contra uma coisa qualquer;
  • quem se embebede contigo;
  • quem te segure o cabelo quando vomitas;
  • quem goste genuinamente de ti como tu és;
  • quem esteja do teu lado mesmo sem querer saber se tens razão;
  • quem te ligue quando tem um problema;
  • a quem ligues quando tens um problema;
  • quem te dê um ombro e um par de ouvidos;
  • quem te ajude a carregar armários;
  • quem te compre as coisas parvas de que gostas mas que nunca comprarias para ti;
  • quem te mostre livros, séries e coisas;
  • quem queira saber dos livros, das séries e coisas que tu tens para mostrar:
  • quem te faça rir;
  • quem se ria contigo;
  • quem cozinhe contigo;
  • quem ache que és a melhor cozinheira do mundo;
  • quem fique feliz com os teus triunfos;
  • quem te beije como se fosses a mais frágil e adormecida princesa;
  • quem te foda como se fosses uma porca;
  • quem saiba que estas coisas fazem falta na tua vida, que não tens de as ter todas na mesma pessoa, que não tens de abdicar delas porque escolheste amar alguém que não é tudo, porque ninguém é tudo.

(pega numa folha, lista estas coisas, põe colunas à frente com os nomes das pessoas da tua vida, percebe quem é quem na tua vida, quem te dá o que precisas, quem é importante, e quem te falta)

One thought on “Manual de Instruções, cap. 98 – Checklist

  1. Florbela
    14/01/2017 at 18:00

    Muitto Bom!

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As Filhas Das Mães, ed. 182

She isn’t just any woman.

Casablanca

 

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As Filhas Das Mães, ed. 173

In the End, we will remember not the words of our enemies, but the silence of our friends.

–Martin Luther King, Jr.

silence_by_mamasi

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Escolho-te A Ti

De todas as mulheres do mundo, escolho-te a ti. E pode haver quantas quiseres enumerar, que tenham a pele mais branca, ou os cabelos mais compridos, eu escolho-te a ti. E mesmo que me tentes convencer que elas leram mais livros, e que sabem falar de mais coisas, eu escolho-te a ti. E podes bem dizer que são mais magras, ou mais gordas, não me interessa, escolho-te a ti. E podem ter as mamas maiores, continuo a escolher as tuas, continuo a escolher-te a ti. Não me interessa se também têm rabos giros, eu já escolhi, escolho-te a ti.

2 thoughts on “Escolho-te A Ti

  1. Alice
    12/04/2015 at 19:22

    Deve ser bom ouvi-lo com essa convicção!

  2. 14/04/2015 at 22:13

    Uma absurdamente fantástica declaração de AMOR.

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Manual de Instruções, cap. 86

“Seek and ye shall find” is a platitude as half-truthful as “the truth will make you free.”

— Anton LaVey, The Devil’s Notebook

Industrial Bondage Shoot

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Eça De Queirós Havia De Adorar A Internet

A separação (temporária) tem isto de bom – que põe em relevo e torna interessantes mil pequenas coisas da vida daqueles que amamos – que até aí, todos os dias vistas, quase se não percebiam.

— Eça de Queirós

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As Filhas Das Mães, ed. 127

It takes two to create a heaven … but hell can be accomplished by one.

— Hubert Farnham, in Heinlein’s Farnham’s Freehold

golden hair

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As Filhas Das Mães, ed. 121

Never try to outstubborn a cat.

— Lazarus Long, in Heinlein’s Time Enough for Love

 

4 thoughts on “As Filhas Das Mães, ed. 121

  1. 07/02/2014 at 14:17

    :) entre gatos e gatas qual será pior?

    1. 07/02/2014 at 14:23

      Maria,

      Gatas das de quantas pernas? :)
      Mesmo assim acho que os gatos ganham. Mas é pôr ambos a teimar um contra o outro e ver quem desiste primeiro… :p

      1. 07/02/2014 at 15:03

        vais-me desculpar não consigo escrever isto em Inglês, mas o que disseste fez-me lembrar um diálogo que ouvi entre dois gentleman. Dizia um para o outro: Você é teimoso, é um homem teimoso, mas vai fazer como lhe digo. :D lllooolll . Um teimoso nunca teima sozinho . ;)

        1. 07/02/2014 at 15:19

          Pois tens toda a razão! :)

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O Ponto A

Mais fundo e mais escondido que o ponto G, deve haver para além disso um ponto A em cada um, uma amígdala ínfima onde reside a essência do ser e onde vive o amor.

O que se ama não é a cara, nem são as pernas, nem são os olhos. Nem é o feitio nem o sentido de humor.
O que se ama é algo mais fundo e mais inatingível.

Amar e gostar são coisas completamente diferentes, e da cara e das pernas e dos olhos e do feitio gosta-se, ou não se gosta. Porque se gosta das pessoas, e se gosta de partes das pessoas.
E se deixa de gostar das partes e deixa-se até de gostar da pessoa.

Mas amar só se ama pessoas inteiras, porque o que se ama é talvez essa amígdala, esse ponto A, esse ponto imaginário e inencontrável e que no entanto existe, e importa, e está lá, e é tão pequeno que não se consegue dividir para se amar só um bocadinho.

E podes deixar de gostar sem deixar de amar, e podes gostar sem amar. O que te torna mais feliz? Não sei falar de felicidade em geral, porque há tantas felicidades como pessoas diferentes, e eu não sei falar de tanta gente ao mesmo tempo.

Falo-te de mim, que sei desejar sem gostar, que sei gostar sem amar, que já amei sem gostar, que já deixei de gostar, que já deixei de amar. Falo-te de mim que sei que amo e que gosto e que desejo, e que me deslumbro porque achava que sabia alguma coisa sobre o amar e o gostar e o desejar antes de ti.

E sabia, mas não era a mesma coisa. Não sabia isto – não sabia que há um lugar dentro do corpo onde as amígdalas se tocam e se conhecem. Não sabia que há um momento em que sabes que é certo o que queres fazer, e noutra altura dirias que não tens certezas, mas agora há uma amígdala em ti que te diz sim.

É possível amar sem conhecer o ponto A, sem nunca o ter sentido, tal como é possível correr sem ter ideia de quantos músculos da perna são precisos para isso. Mas vivê-lo é como ter um sentido novo, como uma terceira perna, ou um terceiro olho. Senti-lo é saber finalmente porque é que o amor não se consegue explicar. Senti-lo é saber finalmente que a amígdala só se sente quando aparece quem lhe toca. Senti-lo é saber finalmente que há mais para além.

E eu sei.

Agora, sei.

7 thoughts on “O Ponto A

  1. 06/02/2014 at 23:50

    Sabes…não tinha por costume falar de intimidades, até me acontecer o que descreves. E aquele amor que se forma quase platónico, literário, e que julgamos ser determinada coisa que até nem é tão floreada como a líamos, de repente transforma-se numa outra coisa , totalmente diferente, que não nos sai do corpo, nem do pensamento, nem do dia a dia. E tudo quase que deixa de fazer sentido se não se unirem de alma ou corpo esses pontos . Tudo combina, tudo complementa. E fiz agora uma declaração enorme de sentimentos. Para quem gosta de se escudar atrás do corpo, nada mau ;)

    1. 06/02/2014 at 23:58

      :)

    2. 06/02/2014 at 23:59

      E sabes que isto de usar o corpo como escudo dos sentimentos, ou as imagens como escudo das palavras, é coisa que tem que se lhe diga…

      1. 07/02/2014 at 00:04

        Sei sim :) . Boa noite menino :D

      2. 07/02/2014 at 00:07

        Boa noite, Luzia :)

  2. 08/02/2014 at 13:54

    Adorei. Venho por aqui há muito, sem comentar, mas sempre a gostar, gosto do novo lay out!

    1. 08/02/2014 at 22:34

      Irene,
      Obrigado! Apareça, e comente! ;)

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Os Blogs Abandonados

Wastelands. Deve haver outras palavras noutras línguas, mas esta é a única que serve. E ainda têm quadros, nas paredes nuas. Há quem tenha levado o que era bom e deixado o lixo, quem tenha arrancado tudo, quem tenha deixado como estava, como se deixa o quarto de alguém que morreu. E entre as palavras no chão há manchas de sangue, manchas de sémen, catedrais de vidro, cheias de beleza, a apanhar pó, e uma tumbleweed que rola por lá adentro e as aranhas fizeram ninho nos posts e as sementes que foram dali para outro lado e germinaram noutra coisa hoje olham para trás; mas já ninguém lhes chama casa. E essa é a única diferença.

One thought on “Os Blogs Abandonados

  1. 05/02/2014 at 23:01

    …e é por estes e por outros assim ( posts :) ) que eu gosto tanto de aqui vir. É sempre bom vermos os dois lados de tudo. A igualdade é para mim um termo vago, estático e tu confirmas na perfeição a minha teoria. Homens e mulheres têm formas diferentes de ver as coisas, e quando elas os tentam imitar e vice-versa saem coisas desprovidas de característica. Gosto de equidade, a seu dono o que é seu por direito e isso muitas vezes pode implicar muitos mal entendidos. É bom sabermos e querermos colocar-nos no lugar do outro. É terapêutico. E é essencialmente isso que venho aqui fazer. Aprender a visão de um homem culto, que escreve muito bem. Para poder abandonar preconceitos, ideias feitas e julgamentos mais científicos do que comprovados. Tal como descreves os blogs há que abandonar o que não nos serve e levar onnecessário , porque casa é o lugar ontem estamos agora.

    Exagerei nas palavras não foi? É defeito meu, penso sempre em todas as hipóteses possíveis e imaginárias e gosto de as testar. ;)

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The Girl My Parents Never Warned Me About

Os meus pais nunca me avisaram sobre ti.

Nunca me avisaram que um dia surgiria uma mulher que faria todas as outras parecer seres de outra raça.

Não me avisaram que o desejo sexual

tudo o que me dá tesão me dá vontade é de foder contigo.

Nunca me avisaram que um dia surgiria uma mulher que me deixaria sem palavras. Uma mulher sobre quem não sei dizer nada que não sejam clichés.

Nunca me disseram que alguém me faria ser feliz só por existir na minha vida.

Nunca me disseram que alguém podia ser ao mesmo tempo o teu conforto e o teu estímulo.

Nunca me disseram que havia alguém que

Nunca me disseram que nos haviamos de cruzar em tantos sítios, estar tão perto, e nunca nos encontrarmos.

Nunca me disseram que os olhos também crescem, e que talvez só reconheçam quem devem quando podem, não quando querem.

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As Filhas Das Mães, ed. 120

Sometimes looking down on people is just a matter of perspective.

perspective

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Manual de Instruções, cap. 65

Another flaw in the human character is that everybody wants to build and nobody wants to do maintenance.

Kurt Vonnegut, Hocus Pocus

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