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Quatro Graus, Aparentemente

O termómetro diz que estão 7 graus mas que parecem 4. A mim parecem-me menos, mas deve ser da idade. Sou do tempo em que o Instituto, que na altura se chamava de Meteorologia e Geofísica, ainda só relatava a temperatura exacta, a coisa medida, a real e não a aparente. Se falássemos de semiótica e não do tempo, debateríamos se esta nova medida, a da temperatura “sentida”, pretende coadjuvar ou substituir-se ao interpretante, no sentido de Pierce, ou se, por outro lado, pretende corrigir a semântica incompleta da temperatura real. Dito de outra forma, do mesmo modo que chamaram ao Instituto, agora, do Mar e da Atmosfera – porque acharam que nós outros, coitadinhos, não entendíamos o que era isso da Geofísica – também criaram uma nova temperatura porque – claro – nunca entenderíamos que o que marca no termómetro não é o que nos cai no lombo.

Há duas escolas filosóficas diferentes: os que entendem que as explicações são úteis, e os que acham, pelo contrário, que as coisas são o que são e as tentativas de as explicar ficam sempre algures entre o paternalismo e a aldrabice. A capacidade de interpretar sozinho os factos é normalmente reivindicada por uma certa elite de nariz empinado, e mais comummente aceite pelo homem dito da rua. O paternalismo não se aplica, é certo, a quem precisa mesmo da explicação, e a aldrabice é bem tolerada pelos nativos quando lhes é servida diária e homeopaticamente.

Ao bom entendedor, as explicações não ofendem. Mesmo que dispensáveis e que nada adicionem à verdade, podemos sempre ignorá-las e formular nosso juízo baseado em informação mais objectiva. Ainda assim, dão jeito métricas como a temperatura aparente, que nos poupa ao fazer das contas à humidade, e ao vento, e a coisas que tais. Chego até a achar que dava jeito ter métrica equivalente para outras coisas, como os carros (“tem 50.000 km, mas parece ter 110.000”) ou as mulheres (“lá no fundo: pessoa boa e justa; na óptica do utilizador: cabra do pior, mesquinha, exigente e vingativa”). O mundo não seria melhor, mas podia ser mais fácil.

 

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