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Quero Amar-Te Como A Um Navio Velho

NudeOldCoupleConta Plutarco que, após ter vencido o Minotauro em Creta, Teseu regressou a Atenas, e que os Atenienses preservaram, durante séculos, o navio em que ele voltou. Cada tábua velha, começando a estragar-se, era trocada por uma igual, de madeira mais nova e mais forte. E diz Plutarco, de passagem, que os filósofos debatiam muito sobre isto, uns dizendo que o navio assim mantido era o mesmo, outros argumentando que, trocadas que já estavam todas as tábuas, o navio de Teseu não era o mesmo, mas sim outro em seu lugar.

Somos todos como o navio de Teseu, e também o é quem amamos. Ninguém permanece igual, as células trocam-se por outras, e mais que isso, cresce a experiência, trocam-se as ideias. E há nisto duas coisas importantes, uma mais que outra: A primeira é olhares bem para quem amas, olhares todos os dias, veres as tábuas a mudar e a ser mudadas uma a uma. Isto faz-te perceber a continuidade; não aches que, só porque viste o navio ontem, ele hoje e amanhã será igual. O amor funda-se no interesse: interessa-te todos os dias por conhecer quem amas, por saber o que vai mudando, e o que fica igual. A segunda é apaixonares-te todos os dias. Não tenhas medo de pensar se ainda amas. Não tenhas medo de te fazer perguntas. Não tenhas medo de começar de novo, todos os dias, com a mesma pessoa. Olha-a todos os dias, com as tábuas novas e com as tábuas velhas, e pensa se ainda é aquele o navio em que voltou quem te matou os Minotauros. E se te apaixonares, apaixona-te.

2 thoughts on “Quero Amar-Te Como A Um Navio Velho

  1. Filipa
    10/09/2014 at 14:47

    Vou dizer-lhe o que me pôs a pensar com este texto, cá vai :):

    “Somos todos como o navio de Teseu…”, embora não com a mesma sorte no que toca à substituição das nossas “tábuas”, que se vão deteriorando a partir de um certo ponto, por muita troca que aconteça e embora sempre a tentar ultrapassar o sermos perecíveis, a verdade é que estamos longe de poder durar os séculos do navio em que Teseu voltou, o que não sei se não será a nossa sorte, é que já tendemos a complicar tanto a nossa vida durante o tempo em que cá andamos, imagine-se, se durássemos séculos. Complicamos tanto no que toca à forma como nos relacionamos uns com os outros e nisso do amor então, normalmente troca-se muito facilmente o interessar-se todos os dias, o apaixonar-se todos os dias, pelo dado adquirido e pelo desinvestimento, troca-se, muitas vezes o olhar de encantamento e descoberta por um olhar de rotina, habituado, passando a olhar-se sem se ver e quando olhamos o outro sem o ver, estamos a perdê-lo todos os dias.

    1. 26/09/2014 at 21:52

      Filipa,

      se não fizermos nada por isso, vivemos só de adrenalina e de movimento. Uma vida “estável” confunde-se com monotonia, como se preto e branco ás riscas não fosse, visto ao longe, uma espécie de cinzento.

      O truque é mantermo-nos atentos. O truque é lembrarmo-nos de com que estamos e porque estamos. Sabê-lo, e repensá-lo, e reafirmá-lo todos os dias.

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