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Rentrer (Sans Qu’On Ai Jamais Parti)

A diferença entre a morte e o coma é, em grande medida, financeira. Além de não deixarem heranças, os comatosos gastam dinheiro em camas, em enfermeiros, em drogas e maquinarias. Os pobres passam menos tempo em coma porque invariavelmente alguém se farta, a cama faz falta, o soro é caro. Os ricos passam lá mais tempo, com enfermeiros que lhes lavam os pés e a cara, enquanto o dinheiro se escoa lentamente a pagar a infraestrutura que os mantém sem fazer nada, meramente a respirar.

Os autores não passam muito tempo em coma, não porque sejam pobres mas porque o coma é uma coisa vista de fora: são os de fora que dizem que alguém está em coma, raramente é o próprio que o vem dizer, regra geral porque isso implicaria não o estar.

Nos meios clássicos de publicação e comunicação, os autores alternam fases de divulgação com fases mais ocultas, que o público confunde habitualmente com épocas de produção de conteúdos. Os autores publicam ou não publicam, e as obras valem pelo que são, sem que os autores precisem de andar constantemente a publicar. Os Beatles não pioraram por não lançar um disco há mais de 40 anos, e Shakespeare não escreve nada novo há que tempos.

Por vezes é mais difícil perceber se a obra de um autor já acabou ou ainda vai continuar. Manoel de Oliveira fez filmes até morrer. J.D. Salinger escreveu um livro aos 30 anos e nunca mais fez nada de jeito. Lena d’Água esteve 30 anos sem lançar um disco de originais. Os Scorpions ainda dão concertos.

Já nos blogs, percepção das coisas é diferente. O blog parece viver da regularidade, mesmo que o conteúdo que lá está esteja tão vivo como num livro ou no dia em que foi escrito. E se não é actualizado, há ali uma espécie de coma, que não é só do site, é do autor.

Marca-se aqui uma diferença entre o blog per se e uma qualquer rede social: se um autor se afasta de uma rede social, até de todas, isso pode ser uma opção e não faz dele imediatamente um recluso. Mas mais do que as redes sociais, que servem para coisas variadas e públicos variados, o blog é a sandbox por excelência, serve para o que o autor quiser, com a periodicidade e o formato que o autor quiser. O blog, aos olhos de muitos, é a voz do autor, a caixa de ressonância das ideias e da vida. E se pára, é porque algo por detrás parou.

O blogger, obviamente, não é igual à pessoa por detrás do blog; mesmo quando não se trata de um personagem, há frequentemente um filtro, a escolha de um tema, de uma faceta, de um lado. Por vezes o blog é uma fase, fecha-se e segue-se para outro quando a vida muda, a atitude muda, a vontade muda, quando deixa de ter piada ou de servir para alguma coisa.

E por vezes volta-se, volta-se a de onde nunca se partiu, regressa-se sem ter ido a lado algum, sem perceber se somos diferentes ou os mesmos, se estivemos mortos, ou em coma, ou só muito calados, enquanto a vida passava pela janela. Sem saber se ao abrir os olhos vamos conhecer alguém, se vamos ver alguém sequer, ou se será apenas o mesmo wallpaper branco, o mesmo quarto vazio, a mesma máquina que, ao fundo, faz bip… bip… bip…

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