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Quem escreve para quem não lê não precisa de evitar o plágio, o pastiche, a banalidade; quem te lê e pouco mais lê acha-te um consumado génio, a dizeres que o melhor dos tempos também era o pior dos tempos, ou que todos os rapazes cresceram excepto um.

Quem escreve para quem lê rala-se com tudo isto. As histórias que se quer contar serpenteam – têm de serpentar – por entre os milhares de histórias já contadas. Mas não as conheces todas, e mais cedo ou mais tarde alguém val ler a tua história e achá-la igual a outra, copiada de outra, pior que outra. É igual à vida, mas a vida tem menos audiência e dura menos tempo. Se é verdade que há sempre novas histórias para contar, novas maneiras de as dizer, torna-se difícil contornar tudo, e quanto mais sabes, quanto mais leste, mais tens de contornar, até tudo se tornar contorno, serpenteio, ziguezague, e a história ser uma história de evitar, não uma história de contar. Mas só as histórias de contar interessam. Por mais que ajude que os leitores saibam o que é grokar, onde foi Tróia, o que sucedeu a Gregor Samsa, só as histórias de contar é que contam, e só contam se as contares.

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