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Salamandra

Antes de ti, outras me pareceram suficientes. Desejei-as às vezes como quem quer bolos, às vezes como quem quer pão. Antes de ti, isso chegava-me.

Aprendi cedo que ninguém te serve se és incompleto; nunca acharás quem buscas, como nunca se acha um braço, nem uma perna para andar.

Sabia, suspeitava, que todos somos salamandras, capazes de regenerar caudas, pernas. E sabia, suspeitava, que o temos de fazer sozinhos, mas que o aprendemos uns com os outros. E soube depois que há quem te queira ensinar atirando-te ao chão; há quem te queira ensinar apanhando-te do chão; e há quem apenas te dê um braço onde te ampares e uma mão se caíres, e assim te ensine mais a não cair da próxima vez, te ensine a levantares-te. e há quem não te ensine nada, não te dê nada, e te peça tudo.

Antes de ti, outras me pareceram tudo, dignas de tudo, fontes de tudo, e qui-las às vezes como quem quer bolos, às vezes como quem quer pão, porque são diferentes, a gula e a fome, mas o resultado é o mesmo: migalhas e ausência.

Reconhecerás o amor por este signo: o braço que te ensinará a regenerar não será para que a carregues, mas para que a abraces; a perna que te ensinará a fazer crescer não será para que a sigas, mas para que possas partir. E, sabendo isto, ficarás.

É de ti que regenera a perna e o braço – és tudo, e tens em ti tudo.

E se te quero como quem quer carne, o fundo dos ocos, a textura do músculo, o escorrer do sangue, te quero como quem quer vinho, e se às vezes parece que respiro por ti, como se fosses a minha guelra num mundo que só submerge, sei que se entre nós viesse um fosso, sei que viveríamos depois do abismo, que aprendemos, salamandras, a fazer crescer os membros decepados.

Só não sei se as salamandras sabem regenerar o coração.

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