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Seara Nova

1. Não é a sucessão dos anos que te faz sentir o passar do tempo; os anos são só números, contados arbitrariamente desde um dia inventado: ninguém estava lá no ano zero – pensa bem – não lhe chamavam isso na altura, o teu ano zero, na época, era o ano qualquer coisa de uma outra era qualquer.

Se queres entender o passar dos anos, experimenta, senão para sempre, durante uns meses, não ler livros nem ver filmes nem ouvir música, nem ver arte de espécie alguma feita por alguém já morto. Limitar o teu consumo a coisas feitas por vivos, ainda vivos, antes que morram.

Talvez isso te ensine a impermanência, o desespero de já não poder ouvir alguém, o receio de que alguém morra antes que acabes de ler o livro que estás a ler. Te ensine a pressa e o valor dos dias, te mostre que o que não viveste hoje está perdido, não volta mais, e amanhã, às vezes, não existe.

2. Parecem-nos imortais, os que estão perto, porque morrem poucas vezes, até porque são poucos. Os longínquos, sendo mais, morrem-nos mais, mas não interessa, porque não deixaste de ouvir Black Sabbath nem AC/DC, nem de ver o Star Wars nem o Night of the Living Dead. Os mortos, na cultura, continuam vivos, e isso desvaloriza a morte, até te chegar perto. Vivemos talvez no primeiro século onde a performance sobrevive à morte – antes ficava a música, a escultura, a palavra escrita, mas cessava o registo vivo. A performance acabava quando o actor saía de cena, quando o cantor saía de palco, e só de há cem anos para cá conhecemos a voz de quem nunca vimos, a cara de com quem nunca nos cruzámos, o olhar de quem nunca viu o nosso. A consciência da morte era da morte dos mais próximos, de uma das cem ou duzentas pessoas que realmente conhecíamos. Hoje conhecemos mais e somos próximos de menos. O nosso círculo de amigos – mesmo definido de uma forma ampla como aqueles com quem já estivemos uma hora à conversa, sem ser em trabalho, mais do que uma vez – terá umas cem pessoas. E no entanto a morte é coisa assídua, morrem imensas pessoas “conhecidas”, mas isso não muda em nada a nossa relação com elas.

3. A assiduidade da morte é uma falácia. Não estamos preparados para a morte dos próximos, para a morte dos nossos. E, no entanto, a morte parece vulgar e familiar. Quem nunca perdeu ninguém, excepto o avô que estava num lar e via uma vez por ano, não entende que perder um pai não é como morrer o David Bowie. Por mil razões, e uma delas é que o Space Oddity em 2017 continuou a soar como soava em 2015, e a ouvir-se quando se queria.

É esse o ensaio fundamental: deixar de ouvir os mortos, de ler os mortos, de ver os mortos – como se te tivessem morrido. O exercício que, incomparável, te permite começar a entender a morte como ausência, como vazio, como falta, te permite começar a entender o tempo como seara, sementeira, semeador da morte, ceifeira. Os anos como gadanha incontornável que te leva gente, um por um, até sobrares tu, até ires também.

4. Só quando entenderes o quanto nos ceifam os anos compreenderás como é importante replantar: criar novo, fazer novo, deixar feito, deixar dito, deixar escrito. Criar memórias, vivê-las, deixar algo em alguém. Quando te ceifarem, quanto de ti terás plantado, quanto de ti viverá nos outros, na memória e na vida e no peito de outros, quanto do que foste e que pensaste e que fizeste viverá em alguém? Ou terás vivido só para ti, engordado só a ti, reforçado só a ti, crescido só dentro de ti? A mesma foice corta o trigo magro e o trigo gordo. A mesma morte leva os condes e os serventes. O único triunfo é teres deixado, por actos ou palavras ou exemplos, semente noutro lado.

Cada ano, arbitrário e inventado, não são quatro estações que já passaram de gente ceifada e morta. É o início de outro ciclo, de outra chance de plantar, de outra chance de não estar só na engorda, de fazer dos dias folha branca, chão para andar, seara nova.

One thought on “Seara Nova

  1. Flor
    06/01/2018 at 14:42

    Gostei.

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