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Semiótica Dos Contos De Fadas – Homens, Mulheres E Expectativas

Nada nos diferencia como a história, como as histórias.O homem, enquanto espécie e não enquanto género, tornou-se homem quando desenvolveu a linguagem a um nível suficiente para contar histórias. Quando passou do “mamute! ali!” para o “matei um mamute” e daí para o “sabes, filho, há muito, muito tempo, o teu avô matou o maior mamute que havia naquelas terras”.
Ser humano é contar histórias. E ouvir histórias. E interpretá-las. E aí é que a porca torce o rabo:
Os homens e as mulheres – e agora falamos de géneros – têm abordagens completamente diferentes à mesma história. Escolhi os contos de fadas porque têm uma importância fundamental da formação do carácter e, se não no estabelecimento da identidade e da diferenciação de género, são certamente relevantes na definição incipiente de pares de causa e efeito e na apresentação de padrões de comportamento.
Importa ver os contos de fadas no seu contexto – não são histórias para crianças no sentido em que as entendemos modernamente. A adequabilidade dos contos de fadas às crianças nasce da sua geralmente pouca extensão e de uma trama quasi linear, de fácil apreensão. Já quanto à temática e aos efeitos cénicos, muitos contos de fadas estão, pelo contrário, mais perto daquilo a que modernamente se convencionou chamar “realismo mágico”, e que é material para ganhar Nóbeis da literatura, veja-se recentemente Mo Yan, e antes dele García Marquez e Toni Morison.
Não quero abordar aqui em profundidade o tema da visão andro- ou gino-cêntrica do mundo no contexto dos contos de fadas. Há muito a dizer sobre o machismo e o feminismo nos contos de fadas, quer nos contos mais tradicionais, quer nas visões feministas e revisionistas que os seguiram a partir dos anos 50 e 60 (em que algumas se limitavam a pôr a espada na mão de uma mulher e fazê-la ser ela a matar os dragões, sem entender que o ponto de vista de uma mulher protagonista é completamente diferente, uma mulher não é simplesmente um homem com cona).Nem sequer quero trazer, ainda na óptica do papel do homem e da mulher nos contos de fadas, a questão cultural e das diferenças de visão e de organização social nos diferentes povos. O maior e mais lúcido protagonista de um conto de fadas, afinal de contas, é Shehrazade, a mulher que mostra ser mais culta e mais inteligente que o Rei e evita a morte mil e uma manhãs seguidas. E nos contos de fadas árabes o papel da mulher é bem diferente – em muitos casos para melhor – do papel da mulher nos contos ocidentais.
Mas passemos ao fulcro da reflexão: perante o mesmo conto de fadas, seja ele o conto tradicional ou um conto modernizado em inversão de géneros (com a princesa guerreira que salva o príncipe indefeso ou vítima de um feitiço), ou ainda perante contos em que a distinção de géneros é ausente ou menos enfática (La Fontaine, Os Três Porquinhos, Os Músicos de Bremen, só para citar alguns), o que considero relevante é que homens e mulheres – e falamos não só de crianças mas de adultos a recordar e reinterpretar os contos, recapitulando de forma inconsciente a maneira como estes os influenciaram, dizia eu que perante o mesmo conto de fadas homens e mulheres o interpretam de formas distintas.
Os homens lêem os contos de fadas de uma forma factual. Para um homem, um conto é uma história de coisas que acontecem, e que pode envolver sentimentos.
As mulheres lêem os contos de fadas de uma forma relacional. Para uma mulher, um conto é uma história sobre pessoas e sentimentos e relações, onde acontecem coisas.
Homens e mulheres têm as mesmas capacidades, ambos conseguem ser factuais e relacionais se o quiserem ou quando entendem que o devem ser. Não há nas pessoas, por serem de um dado sexo, incapacidades de ler o mundo segundo diferentes prismas. O que há é formas mais naturais e portanto mais frequentes e imediatas de o fazerem.
Para os homens, um conto de fadas é uma história de acção. Há personagens, eles fazem isto, depois acontece aquilo. Para um homem, a Branca de Neve foge para a floresta, encontra os anões, é envenenada pela bruxa, fica para ali estendida, depois vem o príncipe e dá um solavanco no caixão e ela desengasga e salva-se, e ele leva- para o castelo para fazer aquilo que os príncipes fazem às Brancas de Neve. Fim da história.
Para as mulheres, há ali todo um drama psicológico de ciúme da Rainha Má, que é insegura porque se encharca em Q10 e por mais BBCream que meta continua a estar a ficar cada vez mais velha, há a vingança não porque ela odeie Branca de Neve mas porque Branca de Neve ameaça o seu estatuto, há o arrancar do coração como símbolo do arrancar-lhe e absorver-lhe a força vital.
Para uma mulher, há significado no facto de o caçador levar à raínha um coração de uma corça, símbolo na jovialidade e da pureza, e não de um javali ou outro bicho assim. Para um homem, se calhar a pensar dois segundos nisso, conclui que a corça era o primeiro bicho que ele arranjou, afinal um coração de porco até é mais parecido com um coração humano e até podia disfarçar melhor.
Um exemplo curioso é o da Bela Adormecida. A visão masculina é a do herói que faz tudo por brio, e no final se apaixona. A visão feminina-cutchi, não feminista, é a da grande história de amor do príncipe que faz tudo para salvar a princesa, obviamente por amor. A visão feminista é de que a história é um atentado contra o papel da mulher, a que procura remetê-la ao papel de cusca indisciplinada que não resiste a picar-se no fuso, que promove uma visão subserviente da mulher que só serve para ficar ali estendida à espera de ser “salva” pelo primeiro que apareça, e que é condenada a ficar com ele porque ele a salvou do sono eterno, quer goste dele ou não, fica com ele por gratidão, como se ele a tivesse “comprado” do reino dos mortos e agora ela fosse dele.
Reparem que quem tem visões contraditórias disto tudo acabam por ser as mulheres.Para qualquer homem é óbvio que o príncipe foi lá porque o 1. castelo estava ali e 2. diziam que lá havia uma princesa e 3. ele não tinha nada melhor para fazer.
Olhando para os tais contos mais neutros do ponto de vista do género, torna-se evidente que homens e mulheres, quando lêem as mesmas palavras, não lêem a mesma história.
Para uma mulher, os três porquinhos (mesmo na versão simplificada) são uma história sobre a preguiça e o desleixo. Para um homem, são um conto sobre engenharia civil. O que um homem retém da primeira parte da história dos três porquinhos é que não se devem fazer casas de palha ou de madeira em sítios onde haja lobos. A segunda parte da história é uma espécie de “sozinho em casa”, com os porquinhos a montar uma armadilha para tramar o lobo. Uma rapariga a contar de memória a história dos três porquinhos vai passar mais tempo a falar dos atributos morais dos porquinhos e de como eles se sentiram quando o lobo apareceu à porta, do que um rapaz. Um rapaz vai debruçar-se sobre o facto de um porquinho fazer uma casa de palha porque havia palha ali perto, outro o mesmo com a madeira, e de que o terceiro teve de ir comprar tijolos à cidade; e é bem possível que vos tente explicar como é que o lobo trepou até à chaminé, se escalou a parede ou se arranjou uma escada.
Se as mulheres se queixam dos contos de fadas “tradicionais” porque estereotipam as figuras femininas, experimentem fazer toda a inversão dos factos.
No Capuchinho Vermelho, a Capuchinho trama-se porque desobedece à mãe. Uma rapariga lê o Capuchinho Vermelho e entende isto. Ela entende tudo o que a Capuchinho sente, vive o drama psicológico da Capuchinho Vermelho. Ela entende que ao arriscar demais fica sujeita aos perigos que houver, e, citando Blanche DuBois, à bondade de estranhos.
Já um rapaz não sente metade disto. Para um rapaz, a Capuchinho não faz grande coisa de mal, até porque depois não tem de fazer nada para ser salva, vai lá um caçador e tira-a. Para um rapaz se identificar com um personagem, ele tem é de fazer coisas difíceis, não de sentir coisas difíceis, porque essas passam-lhe um bocado ao lado.
Para um rapaz, um bom exemplo é o João e o Pé de Feijão. Outro que desobedece à mãe. Que se aventura a subir por ali acima. E que quase é comido pelo ogre e tem de se desenrascar sozinho porque não tinha dito a ninguém para onde ia. No João e o Pé de Feijão, qualquer rapaz ouve a história e percebe que aquilo lhe correu bem por acaso. E por alguma razão a história acaba com João a voltar para o pé da mãe a pedir desculpa, e com a esperança de que o facto de trazer um tesouro lhe permita perdoá-lo, e acaba por perceber que a mãe afinal só o queria são e salvo.
Homens e mulheres entendem estas histórias de formas completamente distintas.Podemos, e devemos, combater a tendência de remeter os géneros para papéis fixos e pré-determinados. Devemos combater coisas como os livros didácticos onde todos os médicos são homens e todas as enfermeiras são mulheres.
E se sabemos que os contos infantis produzem instantaneamente estereotipos, e que cada género os interpreta e dá mais ênfase a um cero lado, prático ou emocional, do mesmo conto, o que temos de entender é o efeito pernicioso que isto tem a nível do inconsciente.
É que às princesas dos contos, segundo o tal estereotipo, não é exigido quase nada.Já os príncipes, têm de ser charmosos, fortes, destemidos, ricos, ter cavalos, lutar por elas ainda aintes de as conhecer, matar dragões, derrotar bruxas, apaixonar-se por elas à primeira vista, ser galantes, dançar nos bailes, e propor-lhes casamento de imediato.
Não admira que depois tantas mulheres por aí chateadas porque não encontram um príncipe encantado.Os homens, esses, lá tentam corresponder em uma ou duas vertentes em que consigam. E alguns continuam a apaixonar-se à primeira vista pelas princesas, mesmo estando elas roxas de asfixia com maçãs entaladas, mesmo estando elas cheias de escaras nas pernas por terem passado cem anos deitadas, mesmo tendo elas passado os últimos anos a dizer mal deles porque o confundiram com o Monstro. E eles que só as queriam salvar de alguma coisa, afinal.
E ainda assim levam para trás, porque quando lhes confessam o seu amor algumas delas têm dúvidas e vão pensar, e lhes dão desculpas esfarrapadas sobre não querer estragar a amizade, e não saberem se estão prontas para um compromisso, e “o problema não és tu, sou eu”.
Pois são. E o problema não é dos contos de fadas. É da maneira como se lêem. :p

11 thoughts on “Semiótica Dos Contos De Fadas – Homens, Mulheres E Expectativas

  1. Liz
    14/06/2013 at 09:51

    A.D.O.R.E.I! esta aqui uma boa e aquilo que tantas xs acontece fora dos contos de fadas. Nos,mulheres, a ler sinais,buzios e cartas e voces, homens a ficarem pelo obvio para nao confundirem mais! ;) tudo culpa da Disney..

    1. 14/06/2013 at 21:58

      Obrigado :)

      E a Disney, essa, é recente, e isto é um problema tão antigo… :)

  2. 14/06/2013 at 10:40

    E por falar em estereótipos… É agradável ver um homem conhecedor de tantos contos de fadas, independentemente da interpretação ;)

    1. 14/06/2013 at 22:00

      NiceGirl,
      a ideia de que a maior parte dos homens encaixa num estereótipo qualquer é um bocadinho estereotipada, não será? ;)

    2. 14/06/2013 at 22:22

      Sem dúvida! ;)

    3. 14/06/2013 at 23:43

      :)

  3. Anonymous
    14/06/2013 at 10:46

    Contos de fadas … hum, pois … agora que me obrigaste a pensar nisso (obrigada), acho que anda toda a gente a ler mal a coisa, quero dizer, se calhar, se calhar, afinal são os princípes que são salvos pelas princesas.

    1. 14/06/2013 at 22:02

      salvam-se uns aos outros, salvam-se uns aos outros, é essa a moral das histórias…

  4. Anonymous
    14/06/2013 at 14:29

    Achei maravilhoso o facto de teres sabido tão bem expor a leitura feminina dos contos de encantar, nem eu faria melhor ;) o que talvez prove que não somos assim tão diferentes, mas somos. Nãon querendo cair em estereótipos, é um facto que os homens são mais “básicos”, olham para as coisas de forma mais directa e não vêem o cenário todo, nem especulam, nem procuram segundos, terceiros, quartos sentidos, e também não inventam tanto, é um facto. Creio que é a isso que chamam intuição feminina que muitas vezes só nos complica a vida mas que nos dá uma clarividência que a maioria dos homens não possui.

    Quanto aos papeis que se espera de cada um dos géneros, muitos deles são impingidos pela educação, outros são herança biológica. O macho exibe as suas melhores características/qualidades, a fêmea escolhe. É assim com todos os outros animais porque haveria de ser diferente connosco? Claro que há questões a considerar que tornam tudo mais complexo na espécie humana mas que agora não vêm ao caso. O que interessa é que há expectativas dos dois lados, que se encaixam nesta visão de contos de fadas. A mulher em geral (o feminismo não é para aqui chamado agora) espera que o homem a conquiste de alguma forma, não precisa de vir a montado a cavalo (precisa que não cheire a cavalo, os príncipes de antigamente não deviam ver água durante meses) nem de matar ninguém pelo caminho. O homem, no meio do pragmatismo e apesar de apenas “ver as coisas como elas são”, também espera por uma princesa insegura e de certa forma indefesa (aos seus encantos pelo menos). Caso contrário, é vê-los a tropeçar nos próprios pés ou a gaguejar quando percebem que a miúda que cora não é tão frágil e indefesa como aparentava. Depois ficam eles cheios de inseguranças e sem saber como se comportar. É bom que sejamos diferentes e que nos encaixemos minimamente nos papeis que a biologia ou a educação nos “impôs” para que haja alguma base de entendimento, mesmo que a tendência seja a de isto mudar com os tempos.

    Mafalda

  5. Anonymous
    14/06/2013 at 14:31

    E quanto ao que dizes ao terminar, os homens são infinitamente mais “lapas” e mais cegos quando estão apaixonados, talvez pela mesma razão que nas outras circunstancias os faça ver apenas o que está à frente do nariz e não o que está por detrás ou em volta. Transformam-se nuns românticos tontinhos chatos mas adoráveis. As mulheres por vezes assustam-se, mas se gostarem deles habituam-se e até acham graça. E se ela fala no estragar a amizade, esquece, não está nem aí. Parte para outra.

  6. Anonymous
    14/06/2013 at 23:58

    Então e a explicação dos homens que só vem/ouvem aquilo que querem?E se a princesa lhe diz que só quer dar umas quecas e eles acedem num primeiro momento e depois vá de se armarem em lapas?
    Serão só os contos de fadas7expectativas ou os homens já andam confusos coitadinhos?
    È que por aqui pelo menos não há pachorra para principes salvadores.

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