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Ser Feliz É Ir De Autocarro A Bucelas

naked girl in busNo presente, só temos do passado as memórias – filtradas, seleccionadas, que poucos temos o raro dom de lembrar tudo. Sabemos que as memórias são pérolas: o facto inicial é o grão de areia, o nácar são todas as vezes em que o recordamos. Mas a origem é a vida, as emoções e os factos. E de que forma e em que medida se transformam os factos em memórias, e, ao mesmo tempo, moldam o que somos?

A dimensão de uma memória é um integral da intensidade sobre o tempo; da força das sensações, boas ou más, ao longo do tempo que duraram. Mas, sendo isto tão óbvio e banal, curiosamente não é coisa em que toda a gente pense. Não olhamos para a vida nem tomamos decisões baseadas nisto, mas talvez devêssemos, talvez ganhássemos, compreendendo que o que se faz hoje, o que se vive hoje, é isso que dita o que vamos ser amanhã. Quando um dia olharmos para o passado, é para estas escolhas que olhamos, e as memórias que tivermos vão ser medidas assim: um integral da intensidade sobre o tempo.

Não é linear, esta medida. Uma emoção forte vivida pouco tempo não tem o mesmo valor que outra mais branda, com metade da intensidade, mas que dure o dobro. Dirão alguns; não temos régua para medir a intensidade das emoções. É verdade, não temos régua nem escala, mas não importa, o conceito é o mesmo.

Postulo que a dimensão de uma memória é um integral do exponencial da intensidade sobre o logaritmo da duração, dividido pelo tempo decorrido desde o facto, tudo multiplicado pelas vezes que pensamos nisso.

Para os menos versados nisto, é como dizer que ampliamos exponencialmente (isto toda a gente sabe o que é, certo?) a escala da intensidade, e reduzimos de forma exponencialmente inversa a duração. Uma coisa que tenha o dobro da intensidade regista-se em nós com dez* vezes mais força. E é preciso que uma coisa dure dez* vezes mais tempo que outra para que se registe em nós com o dobro da dimensão.

E naturalmente, sendo os outros factores iguais, nos lembramos melhor das coisas que ocorreram há menos tempo, nos lembramos mais das coisas em que costumamos pensar, das memórias que costumamos revisitar.

Vale a pena pensar nisto:

Dez vezes mais tempo vale menos que o dobro da intensidade, medidos no livro das memórias. No final de contas, o que conta são os picos, os momentos memoráveis, os momentos em que foste realmente feliz. Se o conseguires ser por mais tempo, melhor. Mas a lição é simples: cria tempo para seres feliz; faz coisas diferentes, coisas de que um dia te lembres, faz coisas que te marquem; o contraste ajuda muito, fazer coisas diferentes do habitual. Todos temos hábitos, queiramos ou não. E sair deles gera o tal pico de intensidade nas memórias. O que fizeres, com quem o fizeres, torna-se mais evidente, mais fácil de lembrar, mais presente em ti. E isso muda-te. Isso preenche-te das memórias que queres, das memórias que desejas, mesmo que pareça um truque. Afinal, de que te lembras mais? Da namorada morna que tiveste três anos, ou dessa paixão tórrida de um verão?

Pega em quem gostas, vai jantar fora, passear no campo, andar de barco, saltar nas poças. Aluga um quarto numa pensão chunga, nem que seja para se rirem depois a dizer “lembras-te, que nem tesão tinhas, cheio de medo das baratas?”

Não tens de ir a Paris. Paris ajuda, mas podes ser feliz num autocarro em Bucelas.

E sê feliz em casa: o que dá força às memórias não é só onde vais, mas o que fazes. Inventa. Cria. Faz coisas.

Sobretudo, não te deixes ir apenas na corrente, mesmo que te pareça que não fazes mais que esbracejar.

Sabes, é que a felicidade é uma coisa demasiado séria para se deixar ao acaso.

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