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Teoria Geral Do Contentamento

1.Há uma diferença entre felicidade e contentamento. O contentamento passa por aceitar as coisas tal como elas são, por ter, parafraseando Reinhold Niebuhr, a serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, a coragem para mudar as coisas que podemos mudar, e a sabedoria para as distinguir umas das outras.
O contentamento é uma atitude, é o escolher do discernimento antes da acção e da acção quando ela é consequente. Grande parte das razões para o suposto descontentamento das pessoas vem daqui: de não distinguir o que se pode mudar ou não, de não enfrentar os passos necesários para mudar, de não aceitar os factos cuja alteração está para além do nosso alcance.
2.Há quem ache que o contentamento é uma coisa má. Quem pense que “contentar-se” é conceder, é pedir pouco, é acomodar-se.A máxima de Niebuhr introduz três variáveis que permitem analisar o contentamento humano:A. Qual é o nosso critério de discernimento para arbitrar o que pode ser mudado ou nãoB. Quanta coragem e capacidade temos para alterar o que podemos mudar, eC. Quanta serenidade, leia-se capacidade, temos para aceitar o que não é passível de mudança por acção nossa.
A leitura negativa do contentamento surge quando, na equação de Niebuhr, existe uma tendência considerada (por terceiros ou pelo próprio) exagerada para achar que as coisas não podem ser mudadas, e ao mesmo tempo existe capacidade para as aceitar de uma forma maioritariamente serena.
Não tem obrigatoriamente de ser assim, há leituras alternativas do que significa contentamento – e no entanto, é assim que o vemos.

3.Se o contentamento é uma coisa passiva, uma tendência para achar que não podemos mudar as coisas mas ainda asssim as aceitarmos, quais são os outros pontos?
a) Quem tem tendência para achar que não pode mudar as coisas, mas as consegue aceitar como elas são, está num estado de contentamento
b) Quem tem tendência para achar que não pode mudar as coisas mas ao mesmo tempo não as consegue aceitar como elas são, entra num estado de desespero. Varia consoante a pessoa tenha ou não (a percepção da sua) capacidade de agir caso elas fossem alteráveis: quem tem capacidade de agir fica desesperado com o mundo, quem não tem fica desesperado consigo mesmo
c) Quem tem tendência para achar que pode mudar as coisas mas não tem capacidade de o fazer – ou coragem, como diz Niebuhr – desespera consigo mesmo. Acontece uma de duas coisas: ou tem capacidade de aceitar as coisas tal como elas são sem as alterar, e aí entra-se no conformismo, alterando o bias do discernimento para se convencer que as coisas afinal não podem mudar, ou não tem a capacidade de as aceitar, e geram-se grande parte dos casos de baixa auto-estima.
d) Quem tem tendência para achar que pode mudar as coisas e tem a capacidade de o fazer assume um comportamento dinâmico de acção e mudança, que é normalmente bem visto pela sociedade ocidental, mas que admite uma nuance que por vezes passa despercebida: há quem o faça por incapacidade de aceitar as coisas que não pode mudar. Há variados exemplos de pessoas obsessivas, excessivamente dinâmicas, que entendem que podem mudar as coisas simplesmente porque não as conseguem aceitar como elas são, e isso tolda-lhes o discernimento, e gera-lhes permanente insatisfação.
e) Por último, quem tem tendência para achar que pode mudar as coisas, tem a capacidade de o fazer e simultaneamente a capacidade de aceitar as coisas que acha que não pode mudar, está numa situação que não só não é passiva como nao lhe traz fontes de insatisfação existencial.Será esta uma forma superior de contentamento? Um contentamento dinâmico e não-passivo, chamemos-lhe satisfação – que é palavra com melhores conotações, porque implica “procurar” e “atingir”.
O contentamento e a satisfação são, assim, os dois únicos estados estáveis e que não trazem desconforto para o indivíduo. Mas fazem só por si alguém feliz?
Mas deriva-se daqui que alguma destas pessoas é feliz?Há algo nesta equação que derivámos de Niebuhr que diga como se pode ser feliz?
A felicidade, arrisco-me a afirmar, tem muito pouco a ver com isto.A equação de Niebhur pode explicar a insatisfação e o descontentamento – que podem ser inibidores para a felicidade – mas não passa disso. A felicidade, ao contrário do contentamento, não é uma coisa racional. Tem efeitos ao nível da equação, porque traz um não-sei-bem-quê de equilibrio no discernimento, um catalizador da coragem e da serenidade, mas tem algo que está muito mais para além.
O contentamento, tal como a satisfação, são atitudes. A felicidade, pelo contrário, é irracional e inesperada, e imprevisível.Pode, em certos casos, parecer ocorrer como consequência a longo prazo do contentamento ou da satisfação, mas apenas pela mesma razão que as sementes germinam se caírem na terra e não nas pedras – não é na terra que está o gérmen, embora o possa parecer.
A felicidade é algo que nos pode chegar de qualquer lado,
A felicidade é algo que, como as coisas mais importantes da vida, não se procura, só se encontra.

4 thoughts on “Teoria Geral Do Contentamento

  1. 11/06/2013 at 10:41

    Se é filosofia barata ou não, é discutível (olhando às tags), mas que gostei bastante de ler, gostei. Até porque no momento é tema que me interessa.

  2. 13/06/2013 at 10:09

    João,
    obrigado :)

  3. 13/06/2013 at 10:09

    E que achaste? Concordas, discordas…?

  4. 17/06/2013 at 21:31

    Concordo na generalidade. O que não é estranho ao facto de conseguir identificar, na minha própria experiência, alguns elementos descritos.
    Temo que a maioria de nós oscile entre o contentamento e o conformismo, sem verdadeiramente provar a felicidade ou tomar em mãos o poder de mudar, que existe, embora em alguns casos com grande esforço.
    Não tenho a certeza de a felicidade ser irracional, inesperada e imprevisível. Não tenho essa certeza porque a felicidade parece-me algo idealizado, uma construção do nosso intelecto, e portanto podemos procurar dirigir o caminho no sentido daquilo que percebemos como sendo felicidade. Mas isto, parece-me, é coisa para matutar um pouco… dormir sobre o assunto, que é rico…

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