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Teoria Geral Dos Atractores

old-couple-sitting-together-on-lawn-while-soaking-their-feetSó se ama quem se vê. Não podes amar quem nem sabes que existe.

O amor é um triângulo de forças – paixão, intimidade, companheirismo – mas antes do amor há a atracção, há o que te abre os olhos e te faz reparar em alguém.

É a atracção, e não o amor, que explica o foco humano na beleza, na sensualidade, na masculinidade, na diferença. Queremos ser belos e diferentes para chamar a atenção dos outros, para que nos queiram ver e conhecer e, conhecendo-nos, possam vir a amar-nos.

A atracção obedece assim a mecânicas distintas da do amor; aquilo que nos torna amáveis é diverso do que nos faz atraentes; é possível ser uma coisa sem a outra, e, tendo a segunda e não a primeira, tornamo-nos magnetos de relações estéreis, de gente que nos quer comer e ir embora, de gente que se atrai por nós mas nunca fica.

O oposto é também real e demasiado frequente; há quem tenha tudo para ser amado mas nunca o chegue a ser porque ninguém se aproxima o suficiente, ninguém fica o tempo suficiente para nos chegar a amar. Por muito que se leia em todo o lado que toda a gente pode ser amado, que não é o físico que conta, nem o superficial, como se faz para que alguém nos conheça e nos ame se não os conseguimos atrair?

Há várias respostas para isto, e a primeira é “não faz”.

A Mecânica Da Atracção

Para quem é pouco atractivo, a maior parte do interesse romântico vem de pessoas que são forçadas ao convívio por outras razões que não o interesse. Colegas de escola ou de trabalho, associações de pais em que se faça mais que meras reuniões anuais, voluntariado, cursos de artes ou de ciências, aulas de dança. Já se sabe que a probabilidade de alguém olhar para nós e se encantar (o mitico coup de foudre) é reduzida; o objectivo aqui é que nos conheçam o suficiente para gostar de nós, para se interessar por nós, para desenvolver por nós curiosidade, interesse, fascínio, enfim, encanto. E isso é perfeitamente possível, se lhe dermos tempo e houver convivência que lhes permita ver tudo isto, mesmo sem atracção inicial.

É importante perceber que a atracção, ainda assim, não tem receitas nem modelos rígidos, não passa sequer pelos conceitos sociais de beleza; a noção individual do belo tem tantas variantes quantas há pessoas, e há quem se sinta atraído pelas coisas mais diversas, pelos tipos físicos mais distintos, pelas personalidades e formas de estar mais díspares. Há mulheres que não gostam de homens bonitos, as que os preferem com a barba por fazer, as que não gostam de magros; e há homens que gostam de baixas, de peludas, de sardas, que acham que os óculos são sexy, que gostam de mulheres que se vestem à Barreiro-Anos-70, ou se apaixonam pelos olhos de uma mulher sem ligar à celulite ou a quantos quilos ela pesa.

Confiar na atracção é uma questão estatística. Claro que há, por exemplo, quem prefira as mais gordas, quem veja uma mulher com carnes e pense “aquilo é que é mulher para mim”. Mas pensarão assim, talvez, 10 ou 20% dos homens, o que significa que num escritório com 6 homens há uma grande probabilidade de que essa atracção não exista em nenhum.

A atracção não é um fenómeno exclusivamente visual – envolve o cheiro, a voz, a postura, a atitude, a forma de nos movermos, a imagem que de nós damos. Acima de tudo, envolve muito mais que as nossas características físicas. A forma como nos comportamos, a roupa que vestimos, as coisas que dizemos e como as dizemos são componentes tão importantes da atracção como a altura, os músculos ou as imperfeições da pele. Na atracção é, acima de tudo, algo que ocorre no cérebro e tem imenso a ver com a nossa imaginação. Um homem sente-se atraído por uma mulher porque, em primeiro lugar, se imagina na cama com ela e gosta do que imagina; só depois se sente atraído por se imaginar a interagir com ela de outras formas – a jantar. a conversar, a passear, a rir juntos. As mulheres, com poucas excepções, pensam nas mesmas coisas mas pela ordem inversa.

O Visual Como Atractor

Perante isto, há muito quem queira ficar mais atraente, no sentido social e estatisticamente mais aceite, porque sem atrair nunca conseguirás que ninguém se aproxime o suficiente para te conhecer e gostar realmente de ti. E, se é especialmente complexo mudar a nossa forma de pensar e de ver o mundo, muitos optam por tentar mudar a forma como os outros os vêem.

Uma abordagem comum é a mudança física, não meramente cosmética, mas de fundo, como perder peso ou fazer uma plástica. É normalmente demorada ou cara, requer convicção e persistência, e não permite experimentar várias hipóteses ou mudar de ideias com frequência. No limite, pode chegar-se à conclusão que aquilo que mudámos não nos faz mais atraentes aos olhos de ninguém. É portanto essencial que, ao tomar atitudes mais permanentes, o façamos porque nós próprios o queremos, porque nos iremos sentir mais atraentes aos nossos próprios olhos. Só isso justifica as mudanças mais profundas, e só isso o deve justificar.

As mudanças estéticas e cosméticas são mais fáceis e menos definitivas. Se não gostarmos ou não tiverem o resultado desejado, podemos sempre revertê-las ou passar para outra estratégia. Incluem usar saltos para parecer mais alta, trocar os óculos por lentes de contacto, usar roupa que nos faça parecer mais magros, pintar o cabelo, cuidar-se mais, usar maquillage. Algumas destas estratégias podem ir no sentido de um benefício “canónico”, como o parecer mais alto ou mais magro ou mais jovem ou mais maduro, mas a maior parte estará alinhada com uma mudança conceptual – uma mudança estética que sugere um diferente posicionamento social, intelectual ou cultural.

A estética conceptual é provavelmente a mais fácil e mais versátil das mudanças no plano da atracção. Consiste em alterar a percepção dos outros criando um visual que remeta para determinadas características culturais, sociais ou intelectuais a que queremos dar destaque. Requer algum conhecimento da estética associada a cada grupo socio-cultural com o qual queremos parecer alinhados, algum cuidado e atenção para não cair no excesso patético ou numa transição demasiado brusca, e, acima de tudo, uma escolha criteriosa do look que temos e do alinhamento desse look com a nossa vida e a nossa prática. Poucas coisas são mais ridículas que um look “bibliotecária” em quem não se sabe exprimir em português correcto, ou um look pós-punk em quem lê a Maria no autocarro. Há limites para a ironia.

Em termos de resultados, as mudanças físicas e estéticas, quando bem conseguidas, são eficazes como atractores sobre grandes franjas da população. Pelo contrário, as mudanças conceptuais não têm este efeito universal, sendo eficazes a atrair algumas pessoas mas tendo o efeito contrário sobre outras. Ao serem conotáveis com uma determinada postura, uma determinada forma de estar na vida, um determinado conjunto de gostos e de valores, as mudanças conceptuais tanto exploram os fetiches e os desejos de terceiros como lhes podem causar estranheza e afastamento. O seu uso é, portanto, limitado, e é importante ter a percepção de que, ao adoptá-lo, vamos atrair uma determinada franja da população, como eventual exclusão de outras. Ainda assim, o efeito atractor que vamos ter na população alvo é, potencialmente, muito significativo, e este tipo de mudanças pode ser, e é, frequentemente, a mudança mais eficaz para quem não é alto nem esbelto nem especialmente bonito. Podes ser franzino e lingrinhas e tornares-te bem mais interessante ao vestir-te de forma inspirada nos índios americanos, podes ser baixinha e rechonchuda e ficares uma brasa vestida à anos 50.

O Não-Visual Como Atractor

A atracção não-visual é tão antiga como as cartas de amor, como as paixonetas pelos cantores, como as raparigas das aldeias que suspiravam pelo príncipe do reino, de quem só tinham ouvido histórias mirabolantes. É perfeitamente possível apaixonarmo-nos por uma ideia de alguém, e é mais real ainda apaixonarmo-nos por alguém com quem falamos, com quem trocamos mensagens, emails ou cartas, mesmo sem nunca termos visto a pessoa à frente.

Ao contrário do que por vezes se apregoa, a atracção não-visual não é meramente platónica ou simplesmente intelectual; essa atracção não-sexual é uma realidade, não um mito, mas não é disso que falamos – falamos de atracção carnal pelo outro, de desejo sexual, da forma como a conversação, a partilha de ideias e de opiniões, o descobrir de pontos comuns e incomuns, de como todas estas coisas podem contribuir para a construção de um fascínio, de uma admiração, de uma proximidade que leva ao desejo sexual e físico.

Há obviamente pessoas a quem isto soa irreal, que não conseguem imaginar a atracção física por quem nunca se viu, e há obviamente pessoas para quem isto não funciona assim. Algumas, num ponto intermédio, conseguem sentir o fascínio e o interesse mas só o transformam em desejo carnal após ter visto o outro, nem que seja numa foto, ou baseados numa descrição – subjectiva, sempre – verbal do corpo, da cara, da idade, da cor dos cabelos, dos tamanhos de variadas peças de roupa. mas por vezes a atracção intelectual e emocional funciona melhor quando não vemos a pessoa de todo, quando a nunca vimos, quando os nossos estereótipos visuais e físicos não nos impedem de conhecer o outro por dentro, a partir de dentro, a partir do que diz e escreve e pensa, sem sermos afastados pelo tipo físico, pelos defeitos que todos temos, pela distância entre o outro e um terceiro ideal.

Ao descobrir alguém por dentro, ao começar por dentro, pode acontecer que ao conhecer a imagem física a associes já a alguém que admiras e conheces, a alguém que te atrai e com quem gostas de partilhar algo. Ultrapassas, com isso, a barreira da atracção inicial, e podes, no limite, chegar ao amor por alguém para quem na rua não olharias duas vezes. E, com o amor, com o conhecimento, a intimidade e as emoções, as regras da libido alteram-se, e a atracção física torna-se, frequentemente, real. Quando olhas para o outro já não vês só o que os olhos vêem, mas tudo o que conheces, vês uma pessoa inteira e não apenas um corpo, vês uma forma de vida e não apenas um visual. E é aí, na verdade, que se ancora o desejo duradouro, o desejo físico, carnal, sexual, intenso por alguém, que vem de muito mais fundo que a pele, de um lugar onde, segundo os poetas, os olhos não chegam e só a alma vai.

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