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Uma Nação Sem Mamas Não É Menos Nação

Gosto das tuas mamas, mas gosto mais de ti. Gosto do teu corpo, mas não é o teu corpo que amo. Os corpos são bons e carnudos, e saborosos e importantes. Mas não é isso que me une a ti. O que nos une é uma espécie de fios invisíveis que vêm do peito e do cérebro e da alma e de uma série de outros órgãos estranhos que as pessoas têm por dentro, e esses fios invisíveis e intangíveis saem-nos da boca e pelas pontas dos dedos e pelas palmas das mãos e entram pelo outro adentro, pela menina dos olhos, pela língua e pelas plantas dos pés. O que temos é feito de coisas por dentro. Não é como nas one night stands em que há só corpos. Uma relação só de corpos não passa de uma one night stand na forma continuada. Os corpos mudam, os corpos murcham, os corpos mirram. Os corpos tornam-se velhos. Não deixamos de os amar por isso. Mas o que amamos é quem está por dentro. Amamos com mamas ou sem elas. Ou com pernas ou sem pernas. Habituamo-nos aos corpos. Depois há fases esquisitas, se o corpo muda de repente em vez de ir mudando aos poucos. Quando muda aos poucos dá para nos habituarmos. O corpo de que gostamos hoje não é muito diferente do corpo de que gostámos ontem. Quando muda de repente há sempre um “como é que eu faço agora?”, sempre um deslize, um tocar-te no braço partido, um tentar beijar-te a mama que tiraste e não conseguir deter-me a tempo de não perceberes o que eu ia fazer. Hábitos do corpo, simplesmente. A verdade é muito mais funda. A beleza é uma coisa que exsuda, há uma coisa que vem de dentro e sai pelos poros e traz a beleza à pele. Quando gostas do por-dentro, quando gostas realmente do por-dentro, o corpo já pouco interessa. Serve quando muito para o princípio, para fazer aproximar as pessoas. Há tanta coisa que faz aproximar as pessoas, o corpo é só uma das possíveis. Depois cumpriu esse papel. Uma pessoa inteira cria um corpo diferente, um corpo que sai da mistura do por dentro com o por fora. Olhas para as suas mãos e já não são apenas umas mãos bonitas. São a generosidade dos gestos, de todos os gestos. Passas a mão pelas suas ancas e já não são apenas belas. São movimento e memória e prazer e abundância. A luxúria já não vem só da vista nem do tacto. Há uma outra luxúria que os amantes só de corpos não conhecem. Dá-se a partir do momento em que uma cintura é um cabeço a onde atracas para a vida e para as tormentas. Dá-se a partir da altura em que umas mamas se tornam uma casa. A partir do momento em que uma mulher é um país. Uma nação. A tua nação.

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