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Valentine’s in Pink

the_librarian__by_ONLY_MAYHEMHouve um ano em cheguei à conclusão que o Valentine’s não é nem para quem tem nem para quem não tem, é para quem quer ter. Eu explico – o Valentine’s é o dia do atirar-se a alguém, é a festa dos tímidos, é o pretexto sob a forma de data para tomar uma iniciativa que noutro dia seria impensável. Quem é que compra um cartão com corações para deixar na mesa da Luisinha da contabilidade, aquela baixinha de óculos gira? Quem é que faz isso num dia qualquer do ano? É acto de coragem, que o Fonseca do arquivo não tem – iam acabar falados os dois, Mesmo que o Fonseca não assinasse o cartão com o nome dele, essas coisas arranjam maneira de se saber. E se a Luisinha levasse a mal? Era pior ainda, ia ter de passar a subir pelas escadas das traseiras para não ter de passar em frente à mesa dela todos os dias, de manhã e à tarde, e mais à hora de almoço. À tarde nem sempre a vê, que ele às vezes sai mais tarde que ela – as pessoas pensam que a vida do arquivo é fácil mas enganam-se, tem muito trabalho para fazer.

Há uns tempos a Luisinha começou a ser ela própria a levar as coisas da contabilidade ao arquivo, o que não é normal. Quem leva as coisas dos departamentos ao arquivo é sempre o empregado mais novo, que na contabilidade é uma miúda ruiva que assina “Lopes” e de quem o Fonseca não sabe o nome porque nunca lho perguntou. Antes era ela que os levava, mas agora desde antes do Natal que é a Luisinha. A primeira vez que a viu chegar ficou encavacado e todo vermelho, pensou que ela o tinha visto a olhar para ela no café durante o lanche da manhã. Mal sabe ela que ele olha para ela desde que ali começou a trabalhar há quatro anos. Mas afinal ia levar arquivo, e tem ido levar arquivo todas as semanas, e conversam um bocadinho. Ontem falaram do tempo, da tempestade que houve. O Fonseca disse “E a tempestade de há uns dias? Lá na minha zona fez muito vento.”, e ela respondeu “Na minha também.”, o que não ajudou nada o Fonseca, porque esteve vento em toda a parte e assim não ficou a saber nem onde ela mora, nem se mora sozinha, nem nada. Mas foi das conversas mais longas que já tiveram, e ele jura que a viu sorrir quando se despediu.

A Luisinha é a rapariga mais bonita que o Fonseca já viu. Não tem o ar delambido que muitas raparigas modernas têm, não tem ar de quem tenha conta nisso das redes sociais, o que calha bem porque o Fonseca também não tem. Usa camiseiros com folhos e saias e óculos pretos de massa, e tem um sorriso encantador. O Fonseca nunca a viu sorrir, não abertamente – a Luisinha é uma rapariga contida e discreta, e o Fonseca tem receio de olhar descaradamente para ela – mas já a viu esboçar sorrisos quando fala com outras raparigas no café da empresa. Às vezes à noite imagina esse sorriso amplificado, como imagina as formas dela sob os camiseiros, os seios empinados, e como serão as meias dela – até acima, ou pela coxa? – e e as coxas, que imagina brancas, macias e carnudas.

O Fonseca nunca lhe viu namorado buscá-la à porta, nem anéis no dedo, nem fotos em cima da secretária. E este ano decidiu aproveitar o Valentine’s e comprar-lhe um cartão. Tem andado a ver cartões nas lojas do Chiado, à procura de um que tenha a mensagem certa, mas ainda não achou o ideal. Não vai escrever nada no cartão, para ela não lhe conhecer a letra, por isso é importante que já venha impresso com as palavras certas.

Depois vai chegar mais cedo de manhã e deixar-lhe o cartão em cima da mesa, e ao fim do dia vai ver o que ela faz. Se o deitar fora, é porque não está interessada. Se o puser aberto em cima da mesa, é um sinal. Na festa de Natal da empresa o Fonseca há de arquitectar maneira de ficar sentado perto dela e lhe dizer que foi ele que lho mandou.

One thought on “Valentine’s in Pink

  1. 13/02/2014 at 19:46

    Eheh ! Vai ficar a saber cedo então, quem ele é, a rapariga. Parece-me bem encaminhado, muito bem encaminhado . :D loool ;)

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