1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (1 votes, average: 1.00 out of 5)
Loading...

Velhos

old-peopleHá coisas que nos acontecem quando ficamos velhos. Ficar velho, visto de fora, é uma coisa que acontece. Visto de dentro, vai acontecendo. Todos os dias ficamos mais velhos, mas só ficamos velhos quando damos por isso. é como andar pela rua sem destino e sem atenção e reparar, de súbito, que já estamos tão longe de casa.

A forma mais frequente de se reparar que se está velho é quando nos doem coisas; outra bastante usual é encontrar pessoas mais novas e perceber que não entendemos nada do que elas estão a dizer; ter filhos ajuda nesta segunda parte, durante uns anos – faz com que acompanhemos as coisas da gente nova e sintamos menos essa estranheza pelo que dizem, pelo que gostam, pelo que fazem – mas não evita, de todo, que um dia olhemos para aquelas pessoas que um dia tivemos ao colo e elas tenham a idade que, na nossa cabeça, ainda temos.

Todos nós, interiormente, temos a noção que somos novos, que nos mantemos actuais, informados, modernos, que conhecemos os mais recentes gadgets e tendências e apps e bandas. Apercebemo-nos, no entanto, que os teenagers não fazem coisas que achamos normais, como ler livros, pelo menos não como nós o fazíamos; que têm hábitos e diversões palermas; que a música que ouvem não faz sentido nenhum e é genericamente má; obviamente achamos que são parvos, que esta geração tem problemas, não é uma questão de sermos velhos, eles é que são totós e não percebem que aquilo que ouvem e lêem é uma porcaria. Não nos passa pela cabeça que era exactamente isso que diziam os nossos pais, os nossos avós, quando líamos Neal Stephenson, Chuck Palahniuk ou Jeffrey Eugenides, quando ouvíamos Deftones, Nine Inch Nails e Celtic Frost.

Se estivermos atentos, é possível, mesmo aos trinta anos, ver-nos a ficar velhos: descobrimos que o silêncio pode ser bom, que a solidão pode ser um conforto, que as coisas não têm de acontecer depressa. Ganhamos paciência para certas coisas e perdemo-la para outras. Muda a maneira como olhamos para as pessoas; por vezes passamos a achar banais as que nos intimidavam ou fascinavam, e ao mesmo tempo a dar mais valor às que não nos diziam nada. Criamos a noção de que as pessoas nos interessam pelo que são e não pelo que fazemos com elas, e não nos apercebemos que isso pode estar tão errado como o que pensávamos antes.

Mudamos a maneira como olhamos para as mulheres. A que antes nos pareceria fascinante agora é infantil, pueril, inacabada; suspiramos por velhas de 40 anos, viramo-nos na rua a vê-las passar. Na verdade nada muda – continuamos a gostar de mulheres da nossa idade – mas ao mesmo tempo tudo é completamente diferente, achamos nós, ao achar que sentimos o tempo a passar e começamos a ser velhos. Daqui a trinta anos, bem o sabemos, vamos rir de nós mesmos nesta idade, achar alguma graça a como éramos infantis e não sabíamos nada.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.