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Buscamos o escasso: num pomar com três laranjeiras e uma macieira, vamos às maçãs primeiro. É estúpido mas é assim. Por isso mais depressa gramamos uma palermice qualquer na TV do que vamos buscar um DVD de que gostemos – não porque seja melhor isto que está a dar, mas porque, de alguma forma, achamos que é passageiro; temos de aproveitar, antes que já não haja.

Da mesma forma, tudo o que é móvel nos capta a atenção mais do que o que permanece. Feitos para fugir e para caçar – ou, como diria o bom senhor Darwin, descendentes dos que fugiram e dos que caçaram – os nossos olhos são naturalmente atraídos pelo movimento, ao ponto de ignorar completamente o pano de fundo.

As relações que duram, após os tempos iniciais, perdem movimento. As pessoas tornam-se estáveis, tornam-se habituais, e com isto deixamos de as ver. O mundo à volta, com o seu perpétuo movimento, capta-nos mais a atenção do que aquilo que nos parece sólido e sereno. Deixamos de dar prioridade ao outro, que, ao não ser novo, se vai confundindo com a paisagem, um enquadramento para as coisas sempre novas que acontecem.

Claro que, se nos perguntarem, diremos que a nossa relação é primordial, essencial, mais importante. Mas na pressa de chegar aos sítios, de ver as coisas, de responder a quem nos interpela em voz alta, vamos deixando de ter tempo e atenção para quem está, mais sereno e mais calado, ao nosso lado.

É difícil manter-se sempre interessante e novo. Nem toda a gente consegue chegar aos 40 e continuar a ter uma vida de rock star, ou ter hobbies novos e cativantes todos os meses – e, se o fizer, essa mudança constante torna-se ela mesma um hábito, e ganha invisibilidade. A constante somos nós, a maneira como olhamos para a vida, as opiniões que temos sobre as coisas. Por fascinante que seja o teu ponto de vista, ele não muda ao sabor do vento, e as tuas ideias já as partilhaste todas ao longo dos vários anos, e até podem ser boas mas não são novas, ao contrário de todas as que se ouvem na rua.

Dirás que o mundo actual tem exigências, que o trabalho, a família, até a casa nos consomem tempo e nos exigem atenção, mas o facto é que respondemos a essa exigência e nos focamos no trabalho, nos amigos, nos filhos, até na casa, ou focamo-nos nos hobbies ou num livro ou num programa de tv com a justificação, válida, de que merecemos tempo para nós, de tempo para descansar. Também é verdade que ali ao lado está alguém com ideias próprias, e vontades próprias, e coisas que gostava de falar e de fazer connosco, e a quem, no torvelinho do dia a dia, damos uma fracção da atenção que devíamos, e que merece, pela simples razão de que é, hoje, igual e coerente com o que foi ontem.

É a isto que os ingleses chamam “taking for granted”, a ideia de que algo, ou alguém, é tão permanente que podia fazer parte do cenário. Os seus movimentos deixam de nos captar a atenção. Ao ponto de só tardiamente percebermos que se movimentou tanto que se foi embora.

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